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  • O ENSINO DE LÍNGUA INGLESA E A IDENTIDADE DE CLASSE SOCIAL: ALGUNS APONTAMENTOS

    http://ref.scielo.org/ksjxmv
  • Análise semântica e pragmática Dos significantes “neguinho (a)”, e “nego (a)" no século XIX e no mundo contemporâneo

    Publicado originalmente nos Cadernos do CNLF, Vol. XIV, Nº 4, t. 3 (http://www.filologia.org.br/xiv_cnlf/tomo_3/2347-2355.pdf


    Gabriel Nascimento dos Santos (UESC) gabrielnasciment.eagle@hotmail.com
    Maria D’Ajuda Alomba Ribeiro (UESC)


    1.     Introdução

    Com a base nos conhecimentos e estudos a respeito de signi-ficante e significado a ciência da linguagem, assim como muitas ou-tras ciências puderam ter avanços em sua cadeia de pensamento. Se-gundo o estruturalismo concebido a partir das teorias de Saussure (1969) é concebido significante toda unidade que forma o significa-do. A concepção saussuriana de que a fala é apenas um ato individu-al foi derrubada por Bakhtin (1997) no tocante à importância do meio para a formação dos dialetos e idioletos. Partindo dessa lógica, com o advento da ciência da linguagem, que já passou por outras vá-rias evoluções científicas em sua cadeia de pensamento ao longo do século XX, o estudo da palavra e dos diversos tipos de texto ganhou uma fundamentação de grande importância. A palavra é um produto social e de valor histórico importante. Com as considerações sobre significante/significado pôde-se formular uma série de teorias a res-peito dos discursos e suas vertentes, assim como o estudo do próprio signo. Um passo importante proveniente do pensamento saussuriano a que se pode destacar foi também o estudo de diacronia e sincronia. A partir de Saussure pode-se concluir que Diacronia é o estudo de uma palavra numa linha histórica e Sincronia é o estudo de uma pa-lavra em um determinado tempo dessa linha do tempo.

    Este trabalho busca trabalhar, ademais, com duas sincronias, observando as relações semânticas e pragmáticas dos significantes “Neguinho (a)” e “Nega (o)”, entre outros no tempo da escravidão no Brasil e no mundo contemporâneo. Será feita aqui uma análise do significado e da relação entre o discurso emitido por esses significan-tes e os seres de cada uma das épocas estudadas baseado a partir do campo da Sociolinguística Teórica. Como referencial teórico este trabalho apoia-se em Saussure (1969) para abordar conceitos da teo-



    ria estruturalista inicial, Bakhtin (1997) em relação à Língua e meio, Hall (2003) a respeito de ideologia na cultura e Vogt (1943) a fim de explorar a relação entre pragmática e ideologia, entre outros.


    2.     O contexto histórico dos dois significantes

    Ao iniciar a análise pretende-se observar o contexto histórico de cada uma das épocas em que o significante é aplicado.

    Ainda que se possa trabalhar com toda a evolução (diacronia) semântica e pragmática dos significantes já expostos pretende-se, como ficou claro na introdução, trabalhar com dois momentos histó-ricos (sincronia). Portanto, pretende-se estreitar relações com duas sincronias do uso dessa palavra. Inicialmente os significantes “ne-guinho” e “nega” serão analisados no século XIX.

    Com forte introdução de negros no Brasil o país era conside-rado um dos maiores importadores de escravos daquela época. As cargas humanas chegavam de Angola, Moçambique e muitos outros países da África. Foi tratando o negro como um animal de carga que o brasileiro começou a usar do preconceito linguístico para humilhar aquele ser humano.

    As relações de produção e estrutura sócio-política que delas direta-mente deriva determinam todos os contatos verbais possíveis entre indi-víduos, todas as formas e todos os meios de comunicação verbal: no tra-balho, na vida política, na criação ideológica. Por sua vez, das condições, formas e tipos de comunicação verbal derivam tanto as formas como os temas dos atos de fala. (BAKHTIN, 1997, p. 42)

    Quando os escravos eram castigados os significantes “nego” ou “nega” eram usados. Nesse registro de linguagem cada um dos significantes era usado como forma de desonrar o escravo. Note que o ser negro tão traz uma semanticalização “neutra”1 se analisado se-paradamente. Entretanto, dentro do contexto de linguagem, no regis-tro analisado da escravidão “ser negro” era não ser humano e ser um animal fétido, utilizado para trabalhar sem remuneração e estar sujei-to a castigos. O social nesse caso forma a semântica de cada palavra usada no contexto. A respeito da importância contextual palavra Ba-khtin afirma: “O sentido da palavra é totalmente determinado por seu
    1 Presente em Bakhtin (1997), ideia que será trabalhada mais à frente.






    contexto. De fato, há tantas significações possíveis quantos contextos possíveis”. (BAKHTIN, 1997, p. 106)

    Nessa concepção corrobora-se a teoria bakhtiniana de que a linguagem é formada a partir da relação entre o sujeito e o meio. A ideologia do contexto, no registro de linguagem usada durante a es-cravidão, definia que “ser negro” era ser semanticamente inferior. A variável “negro” era usada nos registros mais formais. Logo, como um recurso pragmático, os feitores e capitães do mato na hora de tra-tar os escravos os chamavam de “negos”. Por que recurso pragmáti-co? Em suma, falar sobre variação linguística sem atentar à impor-tância da pragmática como mantenedora desse estudo é uma armadi-lha. Para Vogt (1943) a pragmática deve ser entendida como a análi-se da atividade “interindividual” do discurso.

    Como todo falante em estilo corrente de linguagem os feitores não queriam utilizar variantes que pudessem ser avaliadas como de-masiadamente arcaicas ou intelectuais. Essa relação entre uso e con-texto nunca deixou de ser presente entre os falantes da língua.

    Por outro lado, o outro contexto analisado neste trabalho é o do mundo contemporâneo. Contudo, apontar um contexto dentre as relações sociais do mundo atual é outra armadilha. Sim, porque há vários contextos de linguagens nessas duas épocas. Com a evolução humana (a depender do próprio valor semântico que a palavra evolu-ção pode levar) as palavras também evoluem. Evoluem porque o homem passa a pronunciá-las de forma diferente, a usá-las num novo contexto de linguagem e estabelecer para elas novos significados. Aí está a evolução pragmática e semântica aludida neste trabalho. Ou-tras relações sociais levam ao estabelecimento de novos significados.


    3.     O significado como uma das identidades da palavra

    É  possível afirmar, portanto, que a identidade de toda palavra é o significante X significado dentro do contexto? A identidade da palavra será a matéria desta seção. No entanto, numa avaliação sepa-rada não são alcançados todos os significados que a palavra pode ter. Isso porque são muitas as relações sociais em que ela é aplicada.

    Os signos podem aparecer em um terreno interindividual. Ainda as-sim, trata-se de um terreno que não pode ser chamado de "natural" no






    sentido usual da palavra: não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se. A consciência individual não só nada pode explicar, mas, ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social. (BA-KHTIN, 1997, p. 35)

    A partir do citado, o meio dita a relação pragmática dos signi-ficantes. Nessa linha de pensamento “nego” que no século XIX era usado para inferiorizar outro ser humano, hoje, por causa do meio (não há mais escravidão oficial, lavrada por constituição) toma vá-rios significados.

    A identidade da palavra (significante X significado) é ditada pelo meio. Portanto uma palavra assume diversas identidades, uma vez que partindo de Bakhtin ela é neutra. Nesse ponto de vista só é analisada a relação Significante + contexto= significado. Essa rela-ção pode ser definida como o percurso da pragmaticalização e se-manticalização da palavra. Isso porque o significante “nega”, por e-xemplo, não padrão e de menos prestígio mais o contexto que é apli-cado (final do século XIX, forte racismo com escravos recém-libertos ou século XXI num registro íntimo entre uma senhora e sua filha) leva ao seu significado. Dependendo de uma análise dentro do contexto, uma mãe que chame sua filha por “nega”, pode estar utili-zando o significante como vocativo, e para expressar carinho. Ao contrário do que acontecia com um escravo no tronco sendo chicote-ado.

    O que acontece também é o uso de acordo com a estilística. Uma vez que de acordo com o registro (formal, íntimo) esse signifi-cante não será aceito e pode levar a uma conotação negativa. Pense-mos num exemplo de uma mulher que trata a recepcionista de um fó-rum de “nega”. Exceto se as duas se conhecerem intimamente (o que será uma relação de intimidade e que muda nossa pressuposição) o significante terá outra interpretação. Isso ocasionará a uma maior ri-gidez do interlocutor (a recepcionista do fórum) que não aceitará ser tratada de “nega”. Nessa observação chegamos ao pressuposto de Bakhtin (1997) quando ele diz que “A palavra é o fenômeno ideoló-gico por excelência”. Para tanto, perceba que o uso está ligado ao contexto, pois a palavra guarda uma ideologia.







    A identidade da palavra pode ser dada de acordo com o con-texto, mas não se pode desprezar a história dela porque como diz Bakhtin (1997) ela é um fenômeno ideológico e logo, traz uma carga ideológica, uma historiografia. A respeito disso é dito que “[...] A pa-lavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideo-lógico ou vivencial. [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 95) O significante dentro do contexto apresenta-se como uma de suas identidades, um dos significados do mesmo.

    Portanto pode-se atribuir à definição de identidade da palavra como o momento que ela deixa de ser significante, tomando, pois significado.


    4.     “Nego” é uma expressão racista? A palavra como fenômeno ideológico

    Uma pessoa que use “nego” dentro de um estilo de linguagem íntima, como recurso pragmático de carinho deve ser considerada ra-cista? A palavra viaja no tempo e guarda uma história. Segundo Ba-khtin (1997) a palavra é um fenômeno ideológico. Mas o que é ser fenômeno ideológico?

    Voltando-se para o final do parágrafo anterior é necessário analisar o que quer dizer ideologia primeiro. Segundo Hall (2003) uma estrutura é o resultado do que já foi estruturado anteriormente. Nessa vertente percebe-se que uma ideologia é o resultado de estru-turas sociais fixadas, e que todo estruturalismo é historiográfico, por sua vez.

    E sobre ideologia é dito:

    [...] O que é ideologia, senão praticamente a tarefa de fixar signifi-cados através do estabelecimento, por seleção e combinação de uma ca-deia de equivalências? [...] (HALL, 2003, p. 154)

    E qual seria a função da ideologia? Ainda para Hall (2003) a ideologia teria a função de reproduzir as relações sociais de produ-ção. Essas relações de produção foram reproduzidas nas relações da palavra “nego”, “nega”, “neguinho” ou “neguinha”. O racismo via-jou no tempo em uma palavra que agora habita novos contextos e re-gistros de informação. Mas qual será a resposta para a pergunta no






    início desta seção? Haverá racismo num registro íntimo quando uma pessoa usa um desses significantes? Sob a ótica do que foi dito na sessão passada, se a identidade da palavra é a mesma numa análise sincrônica, portanto, pode-se compreender nos contextos íntimos de carinho a não intenção racista do interlocutor.

    A linguagem e o comportamento são os meios pelos quais se dá o registro material da ideologia, a modalidade de seu funcionamento. Esses rituais e práticas sempre ocorrem em locais sociais, associados a apare-lhos sociais. É por isso que devemos analisar ou desconstruir a lingua-gem e o comportamento para decifrar os padrões de pensamento ideoló-gicos ali inscritos. (HALL, 2003, p. 164)

    Hall (2003), nessa visão repete o dito por Bakhtin (1997) a respeito de que a linguagem não pode ser individual. A ideia de que a linguagem é um fenômeno individual é vinculada ao estruturalismo proposto por Saussure (1969). Bakhtin (1997), no entanto, revela ar-gumentos baseados nas teorias psicanalíticas de Freud e no materia-lismo histórico de Marx afirmando, ademais, que a linguagem não é só determinada pelo meio assim como explica a ligação do ser com o meio. Para Foucault (apud Hall, 2003) as identidades são construídas nas relações de poder. Isso se pode aplicar às identidades da palavra a que a seção anterior busca compreender quando nela são estabele-cidos conceitos para a identidade da palavra.

    Entretanto, o que esta seção tenta alcançar é o paradoxo que a ideia bakhtiniana, mesmo que bem fundamentada, causa em relação aos significantes aqui estudados. Se a palavra é um símbolo ideoló-gico, aquele que chama alguém de “nego”, ainda que num registro íntimo, não estará repetindo uma ideologia, ainda que inconsciente? Esse sujeito está sendo racista? Ainda analisando segundo a lógica bakhtiniana pode-se analisar que a palavra é um signo neutro, guarda uma ideologia, mas que, portanto, não a assume quando utilizada em um contexto específico. Portanto, não há intenção racista (partindo do contexto íntimo, carinhoso) do enunciador.

    Segundo o dito por Bakhtin (1997) a palavra não só guarda a ideologia como deve ser entendida como principal objeto de análise das ideologias. À frente afirma-se acerca da palavra:

    [...] é também um signo neutro. [...] O signo, então, é criado por uma função ideológica precisa e permanece inseparável dela. A palavra, ao contrário, é neutra em relação a qualquer função ideológica específica.




    Pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética, científi-ca, moral, religiosa. (BAKHTIN, 1997, p. 37)

    Perceba que nesse caso Bakhtin afirma o pregado neste traba-lho. Em cada contexto, ainda que seja um signo social historiologi-camente ideológico, a palavra assume uma identidade diferente. Ca-da contexto desses leva a um significado, e logo, a uma das identida-des da palavra. Para tanto, ela é neutra porque toma significados nos contextos, mas é ideológica por que guarda uma mensagem histórica.


    5.     Os usos de “nega”, “nego”, “neguinha” e “neguinho” no mundo contemporâneo

    Esta seção busca compreender os usos de “nego”, “neguinha” e “neguinho” do ponto de vista de aplicação nos séculos XIX e XXI. A primeira seção deste trabalho, ligada a uma condição histórica, já trata de um uso geral dos significantes nesta pesquisa trabalhados no século XIX. Esta seção se delimita a trabalhar com a pragmaticaliza-ção e semanticalização desses significantes no mundo atual.

    Eles são, de início, variantes menos prestigiadas segundo a lógica estabelecida por Tarallo (1997). Isso porque o uso dessas va-riantes em um contexto formal ocasionaria avaliação negativa do seu enunciador. No entanto, acerca do que é estabelecido nos estudos es-truturais da língua essas variantes, ainda que desprestigiadas não in-fringem em nada a lógica da língua. De início há nelas a perda do fonema “R”. Essa perda se dá por que supostamente o falante ache

    que o uso da palavra com o fonema gera uma conotação formal, me-nos agressiva. Atualmente a palavras aqui estudadas recebem muitos usos.

    Esses significantes ainda são usados como registros de racis-mo. Abaixo estão algumas frases ouvidas atualmente com tal conota-ção:

    “Aquilo ali é uma neguinha!” “Sua nega feia!”
    “Ô nego dos infernos, tira essas tralhas daqui”. “Quem roubou a casa foi um neguinho”.






    Perceba que o falante nunca usa só os significantes para pro-duzir seu efeito agressivo de racismo. Muitas vezes ele se apoia em um adjetivo que vem depois (“Nega feia”), ou na própria construção da frase (“quem roubou a casa foi um neguinho). Perceba que a sustentabilidade do significado não é dada somente pelo significante. Por isso este trabalho embasa-se em Bakhtin (1997) para induzir que a toda palavra é neutra, já que ela só recebe significado no contexto. A sintaxe da frase e o registro de linguagem reforçam o significado e são fundamentais em nossa avaliação. Perceba agora os usos desses significantes em registros íntimos, como formas de carinho:

    “Ô nega, faz isso pra mim!” “Ô, meu nego! Obrigado!”

    “Obrigado, neguinha! Obrigado mesmo!” “Meu neguinho tá sozinho em casa!”
    Perceba que pelo o que foi avaliado da semanticalização ante-rior desses significantes nesta nova observação as palavras também necessitam da estrutura sintática e do registro de linguagem para to-mar um significado de “querida”, ou qualquer outro significado de carinho. Sem a estrutura sintática para reforçar o sentido só o contex-to vai poder dizer se foram expressões de carinho ou racismo.

    “Neguinho!”

    “Nega!”

    “Ô nego!”

    Fora do contexto como grafadas aqui neste texto, essas pala-vras não produzem qualquer conotação, por não terem uma estrutura sintática reforçando o sentido.

    Observa-se que a pessoa que fala “nego” não trata a palavra como um item do dicionário, mas como um significante que alcança-rá significado. Quando Bakhtin (1997) fala que o locutor da fala não usa a língua como um sistema de formas normativas é proposto que talvez a linguagem enunciada é falada como recurso de comunicação e não como um sistema metódico em que o falante, de forma apre-ciativa, escolhe essa ou outra regra a seguir. A regra é seguida como repetição de um modelo vigente na comunidade. Para o mesmo teó-rico apreciações artísticas sobre a língua foram muito usadas pelos



    gramáticos para impedirem a morte ou ressuscitarem algumas lín-guas mortas. À frente ele ainda afirma:

    Assim, na prática viva da língua, a consciência linguística do locutor e do receptor nada tem a ver com um sistema abstrato de formas norma-tivas, mas apenas a linguagem no sentido de conjunto dos contextos pos-síveis de uso de cada forma particular. Para o falante nativo, a palavra não se apresenta como um item do dicionário. [...] (BAKHTIN, 1997, p. 95)

    Ao analisar o fenômeno da linguagem Vogt (1943) situa a linguagem como o espaço onde o homem estrutura sua cultura.


    6.     Conclusão

    A partir do analisado neste trabalho pode-se concluir que a palavra é um fenômeno ideológico que toma vários significados de acordo com o momento histórico em que é aplicada, e com os con-textos e registros de linguagem. Entretanto, pôde-se observar a im-portância da análise da lógica sincrônica da palavra.

    Este trabalho analisou traços de pragmaticalização e semanti-calização dos significantes “neguinho (a)” e “nego (a)” no século XIX e no século XXI, embasando-se em conceitos sociolinguísticos de Bakhtin (1997), ideológicos de Hall (2003) e estruturalistas de Saussure (1969).


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997.

    HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Trad. Adelaine la Guardia Rezende et al. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

    SASSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Cul-trix, 1969.

    TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. 5. ed. São Paulo: Ática, 1997.

    VOGT, Carlos. Linguagem, pragmática e ideologia. São Paulo: Hu-citec, 1943.





  • As identidades de classe social/raça no ensino-aprendizagem de língua estrangeira: algumas considerações

    Artigo originalmente publicado na Revista Palimpsesto, n. 23, 2016, no link 




    Resumo: As identidades de raça e classe social estão subrepresentadas no ensino-aprendizagem de língua estrangeira, conforme comprovam estudos recentes em Linguística Aplicada. Porém, ambas as identidades são pouco estudadas e analisadas nas pesquisas científicas. No Brasil, mesmo nas ciências sociais, não tem havido um debate amplo das distinções e cautelas que a concepção desses dois tipos de identidade necessita. Por isso, ao tratarmos de forma distinta ambas as identidades, nos pautamos na ideia de que essas identidades carecem de debate, principalmente no ensino-aprendizagem de línguas por ser um espaço de exclusão e ensino elitizado. Neste trabalho desenvolvemos argumentos em favor de uma análise de tais identidades no ensino-aprendizagem de LE, realçando a importância de seu debate para a educação.

    Palavras-chave: Identidades. Ensino-aprendizagem de LE. Linguística Aplicada.
    Abstract: Race and social class identities are underrepresented in Foreign Language teaching and learning, as evidenced by recent studies in Applied Linguistics. However, both identities are not sufficiently studied and analyzed in the scientific research. In Brazil, even in the social sciences, there has been considerable debate about the differences and cautions that the design of these two types of identity. Therefore, to treat differently both identities, we are based on the idea that these identities do not have enough treatment, especially in language teaching ​​to be a space which allows social exclusion and an elitist education. In this paper we develop arguments in favor of an analysis of such identities in the Foreign Language teaching-learning, stressing the importance of their debate for education.

    Keywords: Identities. FL teaching and learning. Applied Linguistics.

    Introdução
    As identidades sociais têm sido temática ampla de diversas pesquisas na Linguística Aplicada, buscando compreender aspectos do ensino-aprendizagem de línguas (NORTON & TOOHEY, 2011; FERREIRA & CAMARGO, 2014; LEFFA, 2013). Das identidades sociais que produzem construtos bastante ricos para analisar o ensino-aprendizagem de línguas, as identidades sociais de raça e classe social nos chamam atenção.
    No Brasil, mesmo nas ciências sociais, não tem havido um debate amplo das distinções e cautelas que a concepção desses dois tipos de identidade necessita. Por isso, ao tratarmos das duas identidades como distintas, nos pautamos na ideia de que essas duas identidades carecem de debate distinto, mesmo no ensino-aprendizagem de línguas. No terreno internacional, desde as décadas de 60 e 80, o debate sobre classes sociais não tem avançado, mesmo nos trabalhos científicos (NORTON & TOOHEY, 2011; BLOCK, 2013). No nosso entendimento, a crise das organizações políticas e sociais, o movimento estudantil na década de 60, novos movimentos sociais a partir da década de 70, a reestruturação global do sistema capitalista foram fenômenos que contribuíram decisivamente para o enfraquecimento do debate sobre classes sociais. Essa concepção, que será discutida neste trabalho, tem embasamento nas ideias de Santos (1999).
    O objetivo deste trabalho é tecer algumas reflexões teóricas sobre as identidades de raça/classe social no ensino-aprendizagem de línguas, colocando o papel da ciência linguística para o avanço das discussões sobre as identidades de raça/classe social no ensino-aprendizagem de línguas. Para realizar reflexões sobre o tema, examinaremos alguns trabalhos existentes que já tratam das identidades de raça/classe social.


    As identidades sociais na modernidade/pós-modernidade: algumas reflexões iniciais

    As teorias sociais, representadas por algumas correntes dos Estudos Culturais, avançaram gradativamente nas últimas décadas no debate sobre as identidades sociais. Entre as correntes científicas que avançaram destacamos tanto aquelas que tratam mais singularmente do caráter de (re) pensar o papel da (re) construção da identidade a partir das manifestações histórico, científico e culturais da pós-modernidade.
    Tomamos com núcleo dessa corrente os trabalhos de Stuart Hall. Em sua vasta obra, Hall (1999, 2000, 2009) traz uma revisão teórica importante sobre o papel da identidade cultural e os seus aspectos de inserção na pós-modernidade. O autor pontua a ideia de identidade a partir da historiografia da noção de sujeito. Para o autor, o sujeito iluminista é o grande primeiro sujeito da modernidade, o qual é um sujeito centrado, caracterizado por Hall (1999) como sujeito iluminista, com identidade centrada e marcado pela razão, sem relação com os conflitos sociais. Trata-se do sujeito idealizado iluminista, marcado pela ascensão da ideia de razão que funda sua política na modernidade, tendo como base o sujeito dotado de razão. O segundo sujeito descrito e analisado pelo autor é o sujeito sociológico. Este sujeito é pensado através das relações estruturantes que o sistema capitalista impõe ao sujeito, fazendo-o se relacionar, ainda que de forma fixa na cultura, com as problemáticas sociais. A caracterização da identidade desse sujeito se dá através da estabilizações de lugares fixos que ele ocupa na cultura. Enquanto o sujeito iluminista é filho dos anseios filosóficos em relação ao fim do Antigo Regime e aprofundamento da modernidade, o sujeito sociológico é a estabilização política da identidade social na modernidade, em que o sujeito já lida com conflitos sociais. O último sujeito, o pós-moderno, é filho da crise de modelo da modernidade. Fragmentado, obtuso e desterritorializado, o sujeito pós-moderno é a antítese do discurso político da modernidade, e seu lugar comum é a indecisão e a crise da noção de sujeito. Esse sujeito não tem uma identidade, mas várias. Suas identidades não são fixas e vivem em constante crise com suas posições sociais. Por sua natureza, o sujeito pós-moderno funciona como uma distopia da crise da razão. A revisão realizada por Stuart Hall é importante, mas não destaca, em nossa opinião, aspectos fundamentais da atuação do capitalismo, enquanto fenômeno central da modernidade e da pós-modernidade. Santos (1999), de modo mais abundante, e numa posição de atualização marxista, tem desenvolvido esse debate, levando em conta as transformações no sistema capitalista, e colocando o impacto em relação às identidades.
    Para Santos (1999), o primeiro período é o do capitalismo liberal, e que se buscou a harmonia entre os princípios, ao nível da regulação, do Estado, do mercado e da comunidade, sem êxito.   O não êxito da harmonia do projeto proposto pelo capitalismo liberal se deu, segundo o autor, por causa do desenvolvimento do princípio do mercado em detrimento do Estado e da comunidade. Marx & Engels (2007) também alertam para o perigo do encolhimento do espaço público através do alargamento do princípio do mercado não regulado pelo Estado. Com o desenvolvimento político do capitalismo liberal, o ideário representado em laissez faire transformou o princípio da comunidade em dois: a sociedade, como lugar de competitividade de interesses particulares e o indivíduo, como livre e igual e elemento fundamental da sociedade civil.
    O segundo período é o do capitalismo estável ou organizado. É aquele em que modificações são feitas a fim de tentar manter o projeto político do capitalismo na modernidade. Nele as relações entre Estado, mercado e comunidade se tornam mais harmoniosas, de modo que ocorre uma expansão gradual do proletariado, do sufrágio universal e dos direitos trabalhistas. São consequências das políticas sociais desse segundo período o Estado de bem-estar social ou Estado-providência, em que o Estado passa, ao nível da regulação, a garantir à comunidade os direitos e recursos que garantiu ao mercado no primeiro período. Segundo o autor, é nesse período que o projeto da modernidade cumpre-se em excesso e excede todas as expectativas.
    O terceiro período é aquele que começa na década de 70 e se estende até os dias de hoje, com a última crise do capitalismo. Santos (1999) o conceitua como fase do capitalismo desorganizado. Nesse período, o princípio do mercado voltou a se estender, dessa vez com “pujanças sem precedentes” (SANTOS, 1999, p. 87). Esse princípio cresceu de volta tão abundante que colonizou “tanto o princípio do Estado, como um princípio da comunidade – um processo levado ao extremo pelo credo neoliberal” (SANTOS, 1999, p. 87). No plano econômico, acontece a internacionalização das economias através das políticas da globalização, levadas a cabo pelas multinacionais, a crise de representação da classe trabalhadora pelos sindicatos, a flexibilização e automatização dos processos produtivos.
    Para Santos (2000), confirmando a forma agressiva de alargamento do projeto político do capitalismo em seu terceiro período descrito acima em Santos (1999), a globalização é o fenômeno que se impôs ao mundo como um novo paradigma de internacionalização do sistema capitalista, o que contradiz o discurso pós-moderno arraigado de uma desconstrução das metanarrativas, encenadas drasticamente pela modernidade. Como discutem Bretãs (2004) e Costa (2004), o surgimento de novas tecnologias não agregou distribuição dessas tecnologias entre todos, de modo que as desigualdades se agravaram.  Nesse sentido, a globalização tanto deslocou as grandes narrativas seculares, quanto criou novas metanarrativas. Para Santos (2000):

    No plano teórico, o que verificamos é a possibilidade de uma produção de um novo discurso, de uma nova metanarrativa, um novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato de que, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma universalidade empírica (SANTOS, 2000, p.21).

               
    Sendo assim, ao impor modelos em nível global, como as grandes corporações, permitindo, como nunca, a concentração de capital, a globalização fortaleceu a neocolonização dos países subdesenvolvidos pelos desenvolvidos, seja através da globalização de capitais, encolhimento das barreiras nacionais (impondo consigo acordos unilaterais bilaterais, criação de blocos comerciais, zonas de moeda única, forças militares conjuntas, fortalecimento e expansão de bolsas de valores e agências de risco) ou do próprio encolhimento do espaço público (CHAUÍ, 2006) como meio de reestruturar o capitalismo em nível global.
    O debate sobre o papel das identidades é importante como plano de fundo de nossas reflexões iniciais porque permite delinear como as identidades sociais foram impactadas pelo projeto político da modernidade e da pós-modernidade em andamento.

    A identidade de raça no ensino-aprendizagem de LE: alguns aspectos

    A identidade de raça no ensino-aprendizagem de língua estrangeira (doravante LE) é um tema bastante explorado em pesquisas científicas no Brasil e no exterior. Vamos delinear alguns trabalhos aqui, segundo o nosso interesse.
    Cornelly (2007), por exemplo, narra a experiência de professores brancos em uma comunidade indígena. Para o pesquisador as múltiplas identidades são assumidas através da performatividade, de modo que as mudanças de identidade são dolorosas.
    Para Butler (2003), as identidades são construídas performativamente. Tomando emprestado o aspecto da linguagem como instrumento performativo do linguista John Austin, em relação aos atos da linguagem, a filósofa destaca que as identidades são construídas socialmente.
    Procurando revisar trabalhos apresentados em congressos de relevância na área de Linguística Aplicada, Ferreira (2014) apresenta que, embora as temáticas sobre identidade de raça no livro didático estejam presentes, elas ainda englobam um grupo minoritário e aparecem com menos frequência no interesse de pesquisadores em LA.
    O resultado da pesquisa realizada por Mastrella-de-Andrade & Rodrigues (2014) também demonstra amplamente que o negro é subrepresentado no livro didático de língua inglesa, sendo que a raça branca ainda é representada como o padrão. Esse mesmo resultado é contemplado na pesquisa de Ferreira & Camargo (2014), sendo que o mito da democracia racial continua sendo um arcabouço desenvolvido sem problematização pelo LD. 
    Sobre como as identidades de raça são representadas no LD, Silva et aliae (2014) apresentam resultados de diversas pesquisas que demonstram que os LDs continuam reproduzindo formas de hierarquização social, em que é comum a sub-representação negra. Os autores também realizaram uma pesquisa numa escola pública estadual do Paraná sobre a rememoração do negro nos livros didáticos, em que foi proposto aos estudantes que desenhassem imagens que rememoravam de negros nos livros didáticos. Grande parte das crianças desenhou imagens dos negros sendo escravizados ou castigados no tronco. Essa é uma representação muito frequente no cotidiano escolar. A pesquisa dos autores demonstra a relação entre o LD e a abordagem que as crianças têm dos textos ali significados,
    Jorge (2014) analisa as identidades positivas que são possíveis sobre raça no livro didático a partir da inserção do LD de LEM no Programa Nacional do Livro Didático. A inclusão do LD de LEM na política se deu a partir de 2011, o que gerou possibilidades para distribuição do material resenhado em escolas públicas pelo país. A autora nota avanços no Edital PNLD 2011 em relação a uma pedagogia crítica para o ensino de língua estrangeira e, portanto para o livro de LEM. Jorge (2014) alerta que, muito embora o edital tenha sempre a expressão “sempre que couber” como marcador, o edital apresenta perspectivas para demarcar o lugar da diversidade de espaços e falantes de inglês e espanhol no LD.
    Notamos, durante a análise de Jorge (2014) sobre o Edital PNLD 2011, analisado por ela que, embora o texto tenha avançado muito como propõe a autora, a noção de poder se mantém intacta, como mostra o trecho do edital retirado da análise da autora: “A imagem da mulher, do afro-descendente (sic) e das etnias indígenas é promovida positivamente, considerando sua participação em diferentes profissões, trabalhos e espaços de poder?” (BRASIL, 2011 Apud JORGE, 2014, p. 85). No trecho é possível verificar que o edital alimenta a ideia de representatividade multiétnica nos espaços de poder, mas não problematiza a ideia de poder e faz, portanto, uma análise partir da noção meritocrática.
    Os trabalhos aqui destacados denotam a visão de que há relações étnicas em funcionamento no ensino-aprendizagem de LE através da construção/representação de identidades sociais de raça.
    É preciso analisar que o enquadre das relações étnicas se dá dentro do imaginário da democracia racial. Esse imaginário se encontra inserido em nossos mitos fundacionais, numa relação imbricada com as comunidades imaginadas pelas elites desde as Capitanias hereditárias.
    É preciso refletir criticamente sobre esse aspecto a partir de dois aspectos que aqui considerados fundamentais: a) a política colonialista instaurada no Brasil durante séculos; b) a elitização do ensino de língua inglesa no Brasil e sua caracterização central.
    O primeiro aspecto pode ser melhor entendido a partir das teorias culturais do pós-colonialismo. Embora tenha incidido pouco nas discussões teóricas sobre a linguagem e o ensino de língua estrangeira no Brasil, as teorias pós-coloniais têm servido para repensar quais são as faces coloniais que continuam gerando impactos substanciais para os países e culturas pós-coloniais. Destacamos aqui os trabalhos e discussões de Hall (2009), Bhabha (2007) e Fanon (2008). Vamos dar ênfase ao trabalho desenvolvido por este último, que, através de Pele Negra, Máscaras Brancas, traz algumas contribuições das máscaras brancas herdadas da colonização que impactam as relações étnicas. O autor traz considerações em relação às máscaras brancas usadas aqui e acolá por negros que, por terem sido violentamente colonizados, ou reproduzem os costumes dos brancos e se sentem brancos, ou não conseguem se desvencilhar dos grilhões que a colonização impôs. Essa questão se insere na discussão da ideia de democracia racial no Brasil, enquanto comunidade imaginada, no sentido de que, historicamente, elites, o Estado e meios de comunicação tentam construir a imagem de um país equilibrado, harmônico, sem preconceito de raça e classe social, não-violento, em que o violento é o outro (CHAUÍ, 2006). O outro, destaca a autora, é sempre a vítima, a que sofre toda a carga de racismo e diversos preconceitos, como o morador de rua, a prostituta, o sindicalista etc. Essas observações nos fazem refletir que no Brasil, talvez de forma não tão clara, há características colonialistas que impactam fortemente as relações sociais, impondo a cultura branca como se isso fosse a imagem do Brasil, seja através da grande mídia (representada pelos meios televisivos e grandes canais de rádio), mas também por diversos objetos da indústria cultural, como é o caso dos livros didáticos já discutidos aqui. Essa noção nos leva ao nosso segundo aspecto.
    A elitização do ensino de inglês se dá por uma série de fatores, ao nosso ver. Primeiro pelo caráter do entendimento da importância da oferta universal do ensino de uma segunda/língua estrangeira no país. Desde o Brasil Colônia, como analisa Vidotti (2012, 2013), a oferta e criação de cadeiras e vagas para o ensino de língua estrangeira tem se dado por razões pragmáticas, sempre por causa de alguma área estratégica para o interesse nacional. Em nosso entendimento, para o interesse das elites. Desse modo, a oferta sempre foi entendida como uma política complementar e não como política em si, sendo monopolizadas como instrumento estético ou pragmáticos pelas elites.
    Foi através da cultura que a língua inglesa se tornou mais preponderante no Brasil, principalmente através das relações comerciais e tecnológicas (RAJAGOPALAN, 2005). Sendo assim, políticas mais afirmativas para o ensino de língua estrangeira vieram a ser sentidas durante as reformas Capanema e Francisco de Campos (VIDOTTI, 2012, LEFFA,1999). Essas reformas, durante os governos Getúlio Vargas, colocaram, ainda que com medidas diferentes em cada uma, a importância do ensino de língua estrangeira pela rede de ensino. No entanto, as Leis de Diretrizes e Bases (LDBs) seguintes, tanto a de 1961 quanto a de 1971, retiraram drasticamente o papel das línguas estrangeiras no contexto da rede de ensino. Esse contexto foi fundamental para que a elitização do ensino de língua estrangeira, sempre praticado como privilégio pelas elites, passasse a ser ofertado quase majoritariamente pelos centros de idioma e rede privada de ensino. A partir daí, o local do ensino de LE passa a se acentuar enquanto capital simbólico das elites e das faixas de classe média. O debate de oferta universal de ensino de língua estrangeira na escola pública e privada passa a se estabelecer após a última LDB, sancionada em 1996.
    Esses dois aspectos se relacionam porque podemos entender, nesse contexto, como a língua estrangeira se tornou um capital simbólico das elites e quais foram os tópicos da cultura e das decisões governamentais e de Estado que contribuíram para que uma visão ainda colonizada agregasse ao ensino de língua estrangeira tanto uma desigualdade racial quanto relações étnicas conflituosas, em que o branco ainda é o ator representado, por ser ele aquele que teve (e que tem ainda) acesso ao ensino de língua estrangeira. (Re) pensar estratégias e narrativas sobre como o negro é (sub) representado no ensino de língua estrangeira nos aponta caminhos que deverão se estabelecer como discussão nas políticas públicas nas próximas décadas. A seguir vamos examinar e analisar alguns trabalhos que discutem a questão da classe social no ensino de língua estrangeira.

    A identidade de classe social no ensino-aprendizagem de LE

    A identidade de classe social no ensino-aprendizagem, bem como nas diversas ciências sociais aplicadas, tem sido preterida nas últimas décadas como foco para pesquisas e teorias (NORTON & TOOHEY, 2011; BLOCK, 2013). No entanto, mesmo com o tema não sendo estudado, as desigualdades sociais não deixaram de crescer com o avanço da reorganização do capitalismo em nível global, seja com o neoliberalismo (BLOCK, 2013) ou com a globalização das desigualdades (SANTOS, 2000).
    Inicialmente, para entendimento de nossas considerações e dos trabalhos que vamos aqui examinar, entendemos classe social numa aproximação com os trabalhos de Lênin (2007), Bourdieu (1987, 2009ª, 2009b) e Block (2013). Lênin (2007) entende classes sociais a partir dos processos envoltos do Estado burguês, e do modo como este permite a acumulação no sistema capitalista e a decorrente alienação da força de trabalho. Bourdieu (1987) entende as classes sociais a partir dos capitais simbólicos em que, com a atualização do sistema capitalista, as classes cumprem, sua função como grupos de status, sem perder sua vinculação econômica. O autor que utiliza as duas abordagens para atualizar o conceito de classes sociais, é Block (2013). Segundo este, as classes sociais desempenham papel político sem deixar sua vinculação à base econômica. Por isso, entendemos classes sociais como um grupamento condicionado por questões econômicas, em que indivíduos têm características socioeconômicas semelhantes, determinadas por razões econômicas e através da relação de antagonismo simbólico e econômico (e simbólico porque econômico) com outras classes sociais. Examinaremos a seguir algumas pesquisas que tratam de classes sociais em seu enfoque de análise.
    A primeira pesquisa a ser analisada é realizada por Block (2013) que discute o caso de Sílvia, uma senhora rica de 30 anos que estudou inglês em Barcelona, no final da década de 90. Em sua pesquisa, Block (2013) analisa características da construção da identidade de classe social burguesa de Sílvia em relação aos colegas, mas especialmente suas visões de classe em relação à colega Rosa, a quem não se relaciona bem e culpa a diferença de classes sociais entre as duas.
    Darvin & Norton (2014) analisam o contexto de construção da identidade de classe social através de imigrantes no Canadá. Um deles, Ayrton, mesmo na condição de imigrante, é filho de uma família abastada, tem o pai empresário e estudou numa área rica de Vancouver. O outro, John, se mudou para o Canadá após passar anos longe da mãe, a qual havia ido para o Canadá para trabalhar. Na pesquisa, os autores concluem que a relação de classes sociais propiciou dificuldades para o aprendizado da língua.
    Ainda no Brasil, Mastrella-de-Andrade & Rodrigues (2014) analisaram como as identidades de classe social raça são construídas nos livros didáticos da série Interchange de língua inglesa. Como resultados da pesquisa, os autores destacam a manutenção do estereótipo da raça branca no LD, sendo que as atividades de lazer, expostas no LD, são elitizadas, os narradores revelam experiências em lugares luxuosos, como shoppings, boates, hotéis e cruzeiros, revelando que o LD valoriza classes sociais mais ricas em detrimento das populares.
    Vandrick (2014), por sua vez, descreve formas como a educação nos Estados Unidos ecoam as diferenças entre classes quando, primeiramente, reúnem públicos com mesmo perfil socioeconômico, sinalizando, assim, as diferenças majoritárias entre classes sociais. Do mesmo modo, critica o desconhecimento dos professores de classe média sobre o sistema educacional:

    Porque muitos professores são de classe média, e os sistemas educacionais enfatizam normas e valores de classe média, as experiências dos estudantes de classes populares ou baixas são sempre desvantajosas quando eles não entendem o sistema, ou são equivocadamente tratados como pessoas que não cumpriram as expectativas (VANDRICK, 2014, p. 87)[1].

    No México, López-Gopar & Sughrua (2014), por sua vez, analisam a relação entre classes sociais e colonialismo em Oaxaca, no ensino de língua inglesa. O autor inicia sua análise lembrando como Block (Apud LÓPEZ-GOPAR & SUGHRUA, 2014, p. 104), que as classes sociais precisam ser analisadas “levando em conta não só a Economia seriamente... mas também a História”[2]. Os autores concluem que o colonialismo se perpetua na região e que haver um engajamento crítico entre as classes sociais e o ensino de inglês.
    É importante destacar, nesse último trabalho, que a relação étnica e de classe social se encontra entrelaçada e de complementação no ensino-aprendizagem, em países que passaram por períodos de colonização. É disso que trataremos na seção seguinte.

    Classe social e raça no ensino-aprendizagem de le: é possível interseccionalidade?

    Um dos termos fundamentalmente explorados por pesquisadores em Linguística Aplicada no tocante às pesquisas de classe social e raça é interseccionalidade. Defendido por Block (2013), mas explorado mais intimamente por López-Gopar & Sughrua (2014), o termo interseccionalidade engloba a relação entre identidades próximas e imbricadas na esfera social, como são classe social e raça.  
    A intersecionalidade é uma proposição necessária para a pesquisa com raça e classe social em países que foram colonizados. Assim, a importância da relação entre classe social e raça é que ambas as identidades precisam ser vistas de modo distintas, mas não distantes. O processo multicultural, histórico, econômico pelo qual passou o Brasil, sendo conferidos os fatores ligados à escravidão e escravização, sem o aprofundamento de uma modernidade industrial, tendo sua atividade econômica baseada na concentração do latifúndio, leva as duas identidades a estarem bem próximas no ensino-aprendizagem de línguas.
    Como notamos, ao retornar à questão do ensino de língua estrangeira na história do Brasil, o ensino de língua estrangeira tem se tornado um capital simbólico elitizado. Sendo assim, a elitização do ensino de língua estrangeira impacta negativamente tanto as classes sociais mais populares quanto as populações étnicas que estão nessas faixas sociais.
    A interseccionalidade é uma defesa teórica nossa, diante dos trabalhos examinados, mas também das pesquisas futuras que se colocarem sobre o tema. Diante da relação entre classes sociais e raça, é preciso também destacar que, como distintas, cada identidade social possui suas próprias problemáticas. Com a defesa da interseccionalidade de análise de classe social e raça nos estudos linguísticos e sociais não queremos reproduzir o discurso da suposta democracia racial brasileira em que, no processo de constituição étnica, nega-se o racismo em favor do preconceito de classe, como se só um deles existisse no país. Pesquisa ampla na área de estudos sociais (MUNANGA, 2006) quanto nos estudos linguísticos (FERREIRA, 2014) demonstra largamente que o racismo não é um obstáculo vencido na luta social contra as desigualdades. O que estamos aqui defendendo é a interccionalidade na análise de ambas as identidades sociais.
    Portanto, tais identidades derivam, ao menos nos países de colonização intensificada, de flagelos comuns, sendo esse o núcleo de nossa defesa. Não se trata, assim sendo, de uma defesa linguística, mas social. Levar esses processos para o ensino-aprendizagem de LE exige leituras mais amplas por parte de professores. Essas conclusões nos levam à relação com o pós-colonialismo, enquanto formulação teórica, no sentido de postular a relação identitária entre classe social e raça no Brasil. Mais conclusões a esse respeito só serão possíveis a partir de trabalhos intensificados de pesquisa, envolvendo processos interpretativos, com estudos de caso tanto interpretativos quanto interventivos, bem como etnografias em sala de aula de ensino de LE, buscando dados que complementem os objetos teóricos aqui explorados.
    Com o objetivo de fazer o recorte entre as identidades sociais de raça e classe social, este trabalho revisitou teorias e examinou trabalhos que analisam as identidades de classe social e raça. Após realizar análises e examinar pesquisas que já enfocaram as identidades, concluímos que é preciso haver interseccionalidade na análise entre as identidades, ainda mais pelo contexto cultural e histórico em que as identidades sociais se relacionam no Brasil. Nossa defesa diante das pesquisas e teorias analisadas serve como produto teórico no sentido de ser questionada e refutada, sendo possível e cabível no tocante às mais diversas identidades sociais múltiplos olhares.

    Abstract: Social class and race identities are represented in the foreign language teaching and learning as evidenced by recent studies in Applied Linguistics. However, both identities are rarely studied and analyzed in scientific research. In Brazil, even in social sciences, there is not a debate about caution and care about the conception of what these identities mean. So, we have as a basis that these identities may have distinct treatment in Language teaching and learning. In this paper we argument in favor of an analysis of the two identities, taking into account the construction of identities in the foreign language teaching-learning
    Keywords: Identities. Foreign language teaching learning.  Applied Linguistics.

    REFERÊNCIAS

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    [1] Tradução minha do trecho: “Because many teachers are middle class, and educational systems emphasize middle-class norms and values, students from working-class or lower-class backgrounds are often disadvantaged when they do not understand the system, or are wrongly regarded as purposely flouting expectations”.
    [2] Tradução minha do trecho: “tak[ing] not only economics seriously ... but also history”. 
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