• Multiculturalismo na rede: os blogs e as redes sociais como mecanismos de comunicação intercultural


    Artigo originalmente publicado na Revista Intercâmbio (B2), no link http://revistas.pucsp.br/index.php/intercambio/article/view/20957/15429 


    Gabriel Nascimento dos SANTOS1 (Universidade Estadual de Santa Cruz)
    Maria D’Ajuda ALOMBA RIBEIRO2 (Universidade Estadual de Santa Cruz)


    RESUMO: Neste estudo pretende-se investigar a colaboração das redes sociais e blogs como propiciadores da existência de comunicação intercultural. A comunicação intercultural acontece nos contextos em que há a intersecção de duas ou mais culturas. Assim, tenciona-se analisar sob quais medidas as redes sociais e blogs da rede mundial de computadores estão funcionando como mecanismos de comunicação intercultural, e sob o olhar da AD francesa, em que autoridade discursiva se baseia a comunicação intercultural na rede. Para a realização do presente trabalho, utilizamos a coleta de dados, através de ferramentas virtuais, como blogs e redes sociais, e analisamos as estratégias possíveis nesse contexto virtual. Dentre os resultados, é possível destacar a possibilidade de aprimorar o aprendizado de uma Língua Estrangeira e a mudança de comportamento de alguns instrumentos de comunicação intercultural, como os blogs, sendo utilizados para emparelhamento comercial, venda e troca de produtos, além das demais utilidades.

    PALAVRAS-CHAVE: Estudos Culturais; Análise do Discurso; comunicação intercultural.

    ABSTRACT: This paper aims at investigating the collaboration of the social networking and blogs as providers of the existence of the intercultural communication. The intercultural communication happens in the contexts which there is some intersection between two or more cultures. So, it aims to analyze how the social networks and the blogs of the Internet are working as tools to the intercultural communication, and with the point of view of the French Discourse Analysis, what kind of discursive authority is based the communication on the web. As a result, we may highlight the possibility of improving the learning of a Foreign Language and behavior change of some intercultural communication tools such as web blogs, being used for pairing trade, sale and exchange of products, in addition to other utilities.

    Keywords: Cultural studies; discourse analysis; intercultural communication

    Introdução

    Desde a segunda metade do século XX tem surgido uma necessidade de oficializar estudos sérios que visem investigar o funcionamento das culturas, no sentido de estudar a sua idiossincrasia, e pontuar que nenhuma cultura é superior à outra, e que cada cultura, com suas peculiaridades, é igualmente complexa.
    Uma cultura não é superior à outra, e isso todo estudioso de cultura já entende proficientemente. O que o pesquisador do funcionamento do discurso e das culturas tem pela frente é a forte demanda do surgimento e divulgação da rede mundial de computadores, a Internet. A rede World Wide Web – WWW, ou simplesmente web, trouxe para os âmbitos acadêmicos a discussão sobre qual seriam os impactos dessa descoberta para o homem pós-moderno.
    A rede mundial de computadores, com seus dispositivos que permitem a autopublicidade e comunicação, vem trazendo à tona algumas perguntas: como funciona a comunicação intercultural na internet? Quais serão as orientações ideológicas que se tornarão vigentes nesta nova etapa do conhecimento humano? Com todos os impactos e estudos sobre o respeito à idiossincrasia do outro o respeito é uma atitude frequente na rede? Todas essas perguntas fazem parte do corpus deste trabalho.
    Para tanto, é a partir desse contexto que nasce a indagação proposta neste estudo, a qual se concentra em compreender como se dá a comunicação intercultural em redes sociais e blogs da Internet. Sendo esse o objetivo geral, visamos responder ao questionamento específico: a) Como se articula o discurso nas ferramentas estudadas?; b) Como os blogs e redes sociais podem servir à comunicação intercultural e ao multiculturalismo; c) Qual a relação entre língua e cultura na apreensão e percepção dos usuários das redes sociais; c) Qual o papel de tais ferramentas no contexto de produção discursiva? Do ponto de vista teórico, justificamos o nosso interesse a partir das concepções da Análise do Discurso (doravante AD) de linha francesa e nos Estudos Culturais, assim como a abordagem da Ecologia Cognitiva3 e as concepções de Lévy (1993). Como parte dos materiais e métodos da realização dessa pesquisa foi realizada uma coleta de dados entre alguns participantes das redes sociais mais populares no Brasil e no exterior Facebook, Twitter, Orkut e Livemocha. Dessa coleta de dados surge este trabalho como apresentação de resultados.
    Ao iniciar este trabalho esperava-se perceber na rede social um espaço de comunicação intercultural, em que o usuário se reconhecesse originário de uma cultura, mas com possibilidade de perceber a rede social como espaço multicultural.
    Esperava-se, também, que os blogs continuassem a ser usados como Diários Pessoais na Internet, e que a rede social e microblog apenas desempenhassem um papel de ferramentas comunicativas em que um usuário mandasse um pequeno texto como mensagem para amigos virtuais, de forma similar ao E-mail. Os resultados dão conta de corroborar alguns dos resultados esperados e refutar outros, como é o caso da rede social como espaço multicultural, na qual se pode aprimorar a atividade linguística, mas refutar a ideia de que os blogs funcionam apenas como gênero de interlocução que funcionem como Diários Pessoais.


    1. Pressupostos teóricos

    1.1 A técnica e o savoir-faire: o suporte e a construção de conhecimento

    Discutir a importância de quaisquer dispositivos na rede que permitam o acontecimento da comunicação insere na esfera da discussão a importância dos suportes e descobertas que levaram a tal. Tanto Marcuschi (2005) quanto Lévy (1993) demonstram que uma evolução no hardware desde a invenção do primeiro computador, o Eniac, que pesava 30 toneladas e ocupava um andar inteiro da estação onde ficava, nos Estados Unidos4, permitiu que outras interfaces pudessem ser produzidas.
    A Apple, por exemplo, durante muito tempo veiculou computadores sem tela, que na maioria das vezes só eram comprados e utilizados por programadores. O surgimento e distribuição da tela, teclado e mouse, ou ainda a construção do primeiro Computador pessoal, tal como se concebe hoje, traz ao bojo das discussões dispositivos que dão propriedade à qualquer pessoa a manusear um computador. Há também, nesse ínterim, uma evolução nas linguagens, já que a oportunidade de escrever um texto em modo Rich Text permitiu a muitos leitores tornarem-se autores de texto na rede.5 Não se pode esquecer que as linguagens HTML, JAVA, PHP, entre outras, continuam sendo os sistemas de linguagem norteadores da produção de um hipertexto e os mais usados por webdesigners. Entretanto, a grande discussão a ser feita é sobre a técnica de interfacear tais linguagens a fim de que qualquer pessoa, usando um programa como o criador de sites Dreamweaver, ou um servidor de blog como o Blogger possa postar textos, mesmo desconhecendo as tags e códigos das linguagens supracitadas. Todo esse recurso é tratado por Lévy (1993) como a propriedade da técnica.
    Inscrevendo a técnica como propiciadora da construção do savoir-faire humano Lévy (1993) enuncia que:

    Vivemos hoje uma redistribuição da configuração do saber que se havia estabilizado no século XVII com a generalização da impressão. Ao desfazer e refazer as ecologias cognitivas, as tecnologias intelectuais contribuem para fazer derivar as fundações culturais que comandam nossa apreensão do real. [...] (LÉVY, 1993:10)
    E completa que:

    [...] Basta que alguns grupos sociais disseminem um novo dispositivo de comunicação, e todo o equilíbrio das representações e das imagens será transformado, como vimos no caso da escrita, do alfabeto, da impressão, ou dos meios de comunicação e transporte modernos. (Op. Cit.:10)

    Assim, a construção do saber, o savoir-faire é condicionado pela prática da técnica. É ainda a técnica que imporá limites à construção do saber-fazer. Se uma nova interface comunicativa surge hoje, a partir de amanhã todas as outras empresas do setor começarão a projetar quais adequações deverão ser feitas para que esse invento possa funcionar adequadamente em todos os lugares do planeta. Um último exemplo, no Brasil, foi a chegada da qualidade HDMI (High Definition Multimedia Interface), TV digital e de alta definição, que fez com que a indústria produzisse adaptadores de sinal. Esse é um dos muitos exemplos que comprovam que interfaces têm que surgir quando um novo dispositivo tecnológico é criado.
    Portanto, é ainda a técnica que dá suportabilidade à existência de comunicação intercultural na rede, como destacam Costa e Paim (2004):

    No quadro delineado ganha relevância um processo que se realimenta continuamente: o conjunto das tecnologias da informação, chamadas novas tecnologias (NTs), que são usadas para o tratamento das informações, que, por sua vez, geram demandas tecnológicas. Assim, as NTs são ferramentas de um sistema em contínua transformação. (COSTA e PAIM, 2004: 16)

    Desse modo, antes da existência da rede social como lugar de comunicação intercultural surgiu a técnica de permitir que um computador possa se comunicar com outros computadores. Na década de 90 essa prática de comunicação entre dois ou mais computadores apenas era frequente nas universidades, entre alunos dos cursos da área de computação e nas forças armadas americanas, para operações militares. Segundo aponta Marcuschi (2005) o uso das listas de discussões (os conhecidos fóruns entre os internautas brasileiros) cresceu rapidamente após a popularização da Internet. Isso comprova uma necessidade do internauta de usar quaisquer formas de ferramentas que surjam como dispositivo de comunicação. É preciso olhar o telégrafo, o telefone, o rádio e a televisão como objetos de comunicação, o que propiciou um pensamento voltado à necessidade da comunicação.
    A dialética da técnica traz à tona que o homem pós-moderno vive em volta do ato de poder se comunicar, e comunicar com novas culturas e com o desconhecido e quaisquer novos aparelhos que venham a surgir devem trazer consigo interfaces que permitam a comunicação.


    1.2 A identidade cultural na Pós-modernidade: o papel influenciador da rede

    Tais investigações acerca da rede trazem a necessidade de analisar quais as influências da mesma para a identidade cultural de cada pessoa. Nos estudos Pós-colonialistas e Pós-estruturalistas o teórico dos Estudos Culturais Homi Bhabha traz reflexões oportunas a perceber sobre a representação desse homem pós-moderno na rede.
    Bhabha (2007) propõe que a identidade do homem pós-colonial e pós-moderno é fragmentada, ambivalente e transitória. E afirma: “Para a identificação, a identidade nunca é à priori, nem um produto acabado; ela é apenas e sempre o processo problemático de acesso a uma imagem da totalidade”. (BHABHA, 2007: 85, grifo do autor). Dessa forma:

    De que modo chegam a ser formuladas estratégias de representação ou aquisição de poder [empowerment] no interior das pretensões concorrentes de comunidades [...] A representação da diferença não deve ser lida apressadamente com o reflexo de traços culturais ou étnicos pré-estabelecidos, inscritos na lápide fixa da tradição. (BHABHA, 2007:20)

    Nesse sentido, qual seria o papel influenciador da rede social e de outros dispositivos da Internet para a construção desse perfil discursivo da identidade pós-moderna? Nas redes sociais pessoas de diferentes culturas se conhecem. O sucesso ou não nessa comunicação depende da leitura sobre o perfil identitário do outro, da leitura presa ou não a uma tradição etnocêntrica, falocêntrica, patriarcalista, em que há gêneros, etnias e culturas inferiores e superiores. Uma comunicação voltada a essa atitude pode propiciar ruptura no ato comunicativo.
    O homem virtual é uma representação do homem real e seu comportamento nos modos de produção capitalista. Essa representação simbólica do homem real é produto das recentes invenções tecnológicas, da ascensão da fotografia e a sua indissociabilidade do discurso do moderno, da hipermídia, da transposição da identidade para a rede. Portanto, para não haver anacronismo, é preciso lembrar de todas as revoluções que antecederam a rede mundial de computadores. Esse homem, ao dizer de Canclini (2000), é fragmentado e aquele que lê gêneros que vão do tradicional ao moderno, porque “a incerteza em relação ao sentido e ao valor da modernidade deriva não apenas do que separa nações, etnias e classes, mas também dos cruzamentos socioculturais em que o tradicional e o moderno se misturam.” (CANCLINI, 2000: 18, grifo do autor)
    Os estudos contemporâneos da Linguística Aplicada e da Pragmática Intercultural têm permitido pensar qual o papel dos Aparelhos Ideológicos de Estado ou instituições, tais como escola, diante das possibilidades da rede para o ensino. Entretanto, relacionando essa oportunidade com a transformação desse homem, produto das revoluções da técnica, pode-se perceber que esse tal ser da pós-modernidade é influenciado pela rede, pela rapidez com que a imagem perpassa seu olhar, pela possibilidade de reunir várias formas de linguagem juntas, tais como áudio, vídeo e imagem. O homem pós-moderno é híbrido, segundo concebe Canclini (2000), e o surgimento da Internet possibilitou com que esse homem pudesse alçar mais representações de si mesmo na rede.
    É necessário que se pense o hibridismo advindo de uma série de fatores, como a globalização, projetos de reestruturação capitalista e o discurso neoliberal, em que o homem consome outras culturas através das marcas, dos outdoors, da publicidade televisiva e radiofônica e no jornal impresso, entre outros meios de divulgação. A rede permite que esse homem se torne ainda mais híbrido. Tais comportamentos podem ser corroborados, através dos resultados desta pesquisa:

    - Numa relação intercultural na rede os usuários se tornam amigos de várias pessoas que conhecem por meio da rede e cujas jamais viram nos contextos materiais, do mundo não virtual. Ao conhecer essas pessoas acontecem embates culturais e os discursos gerados são concernentes ao tão somente ato de conhecer a cultura alheia. Essas pessoas não sabem sequer o nome verdadeiro dos novos amigos, mas trocam informações de sua cultura com eles, e aprendem com eles seus comportamentos idiossincráticos;
    - As pessoas se perdem, sobremodo, nas relações simbólicas de linguagem, chegando a utilizar diversos gêneros da escrita ao mesmo tempo, produzindo um efeito do discurso múltiplo de sua identidade em diferentes contextos. Ex: Um usuário escreve um Tweet6, uma postagem no mural do Facebook, manda um e-mail formal para sua orientadora e um recado para um amigo bem íntimo. São gêneros textuais diferentes, e, portanto, que requerem diferentes comportamentos linguísticos. No Tweet ele só pode postar 140 caracteres, enquanto que mural7 a mensagem geralmente pode trazer marcas da publicidade de outros sites, através da de links, assim como imagens, permitindo que outros comentem, enquanto que no e-mail a linguagem terá que ser formal e bastante monitorada do ponto de vista ortográfico, e no recado8 essa escrita altamente monitorada é dispensada, ficando a possibilidade de aproximar-se dos usos do seu interlocutor.

    A identidade, como a própria linguagem e sua utilidade, não é a mesma, sendo, dessa forma, ambivalente, híbrida e transitória. Os exemplos anteriores são alguns poucos dos muitos que esta e outras pesquisas tentam abranger. De outra feita, tal como foi abordado anteriormente, a técnica está a serviço da necessidade de comunicar. Na rede social e no microblog Twitter o usuário vê passar muito rapidamente, diante de sua face, mensagens com diferentes linguagens, de diferentes culturas e de diferentes autores.
    O homem virtual é, portanto, a representação simbólica e discursiva do homem real, resultante das revoluções tecnológicas do século XX, da cultura da impressão, do surgimento da fotografia, dos discursos modernistas, da possibilidade de dois ou mais computadores cruzarem dados e, logo após manterem comunicação.

    1.3 A pós-modernidade e o discurso da imagem: a dialética da representação


    Já se tornou um fato marcante para o homem pós-moderno o surgimento da rede mundial de computadores e de outros dispositivos tecnológicos. É preciso, entretanto, analisar quais são as marcas da imagem nesse espaço de cultura que são as redes sociais.
    O comportamento discursivo na rede é voltado para a representação simbólica do homem consumista, multicultural e híbrido da Pós-modernidade. Portanto, como foi discutido na seção anterior, não foi na rede que o homem ganhou a conotação de multicultural ou híbrido, mas é a mesma que funciona como mais um suporte para a representação desse homem.
    É indubitável entender que a imagem (ou antes, a utilização do ato de representar simbolicamente) está claramente indissociável nas relações de linguagem na rede. Faz-se oportuno destacar que, como destacam Althusser (1980) e Foucault (1997; 2006), todo discurso parte dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), as instituições (escola, igreja, mídia). Na rede social, ao postar uma mensagem pública, o mural, o usuário está repetindo discursos internalizados nas instituições. Para tanto, o usuário, na rede social, está representando as instituições que ele participa.
    Deste modo, a imagem, na rede, é uma representação do discurso capitalista, consumista e neoliberal instaurado pela mídia e pela técnica do marketing e não o primeiro ato de enunciação desse discurso. Com a rede, a vida das pessoas se tornou bastante ligada a dispositivos, tais como jogos, o que fez com que elas deixassem confusas quem não faz parte desse mundo. Recentemente, no Orkut e Facebook – redes sociais – surgiram dispositivos (os apps), que podem ser usados, como por exemplo :

    - Os jogos, tais como Colheita Feliz e Mini Fazenda permitiram que pessoas fizessem uma fazenda virtual, e cultivassem espécies vegetais, assim como fizessem uso da pecuária virtual. Não raramente pessoas, no mundo real, falam: “Tenho que dar comida aos animais, tenho que molhar a minha horta”, etc. As pessoas que não aderiram a essas redes ou não fazem parte desses contextos acreditam estar doido aquele falante urbano (como cultivar uma horta em uma cidade grande?). Há, portanto, uma incompreensão na comunicação causada pela confusão entre representação e objeto representado.

    A vida dessas pessoas passa então a ser influenciada pelas representações simbólicas delas na rede. O que sugere um processo de reificação (do latim res= coisa) ou coisificação. Engels e Marx (2007)9 já abordavam esse processo como produto das relações capitalistas, em que o sujeito é condicionado a se tornar coisa, ou produto que leva ao super lucro.
    A rede, além de ser um espaço das relações interculturais, é o espaço para repetição dos status quo e do modus vivendi das classes dominantes. A imagem do perfil da rede social tem que ser a melhor, aquela em que o usuário esteja usando roupas da moda, uma imagem bem tratada pelo programa de edição de imagens Photoshop, entre outros.
    A frequência e a forma como a imagem vem sendo usada na rede oportunizam discussões sobre qual a influência de uma Indústria como instituição que lucra sobre o resultado da repetição do discurso da imagem. Se as pessoas divulgam suas imagens na rede social obedecendo aos moldes e padrões da moda, elas estão incentivando o consumo ainda maior na indústria, o que contempla a mídia, alcançado mais especificamente indústrias têxteis e de calçados, entre outros. Dessa forma, existe um pensamento capitalista por trás das cenas discursivas em que os sujeitos se apropriam de um discurso inconscientemente, internalizando-o nas instituições ou Aparelhos Ideológicos de Estado, tais como mídia e escola. Desse modo:

    Dessa maneira, o propósito dessa reflexão é contextualizar a comunicação contemporânea, identificando a Internet como aparato peculiar, apropriado a comportar conteúdos multimídia e a produzir novas formas para as interações sociais. Na perspectiva de um meio de comunicação que abriga vários outros, a Internet é apresentada como um espaço possível de interlocução de diversos atores sociais que se expressam e que leem as mensagens que povoam o ciberespaço. (BRETÃS, 2004: 85)

    E Maingueneau (2007:117) completa que:

    Isto equivale a dizer que o discurso não pode convencer, já que não se pode mostrar uma exterioridade entre o código de referência e as interpretações dos discursos que se fundam nele. O público não é convencido pelos argumentos expressos, mas pela própria enunciação desses argumentos por tal discurso, isto é, pelo universo de sentido ao qual remete este último. Coerentemente, o discurso convence porque ia pela nossa cabeça o que já convencia, mais ou menos obscuramente. [...]


    Torna-se, pois, relevante pensar o comportamento discursivo na rede, a autoridade para a realização de sua enunciação e as instituições que esse discurso representa. Tal discurso é também intercultural porque alça perfis que, assistidos por milhões de pessoas no mundo, serão igualmente repetidores do discurso do consumo.

    1.4 Deslocamento identitário e cultural

    Num mundo de intensa globalização, dos modos de produção cibernéticos, das tecnologias da informação e da inteligência, as relações de poder e a cultura também são intensamente globalizadas, como corrobora Canclini (2008):

    A globalização não é um simples processo de homogeneização, mas de reordenamento das diferenças e desigualdades, sem suprimi-las: por isso, a multiculturalidade é um tema indissociável dos movimentos globalizados. (CANCLINI, 2008, p. 11)


    Assim, não há como falar de multiculturalismo e não falar de deslocamento cultural. Ele ocorre quando uma identidade interage com outra de uma cultura distinta. A partir do momento que se interage com outra cultura o sujeito deixa de ser o mesmo, passando por uma adaptação. Há casos frequentes de pessoas que viajam a negócio para outros países, sabem se comunicar na língua, entretanto, em uma reunião de negócios usam uma linguagem coloquial. No inglês, por exemplo, a forma “Hi” (Oi) não seria bem recebida em uma reunião de negócios, com pessoas desconhecidas. O mais provável é que seria bem recebido um “Good morning” (Bom dia), um “Good afternoon” (Boa noite) ou ainda um “Good evening” (Boa noite). Esse só é um exemplo de como é necessário perpassar o aprendizado estrutural da língua-alvo e buscar o aprendizado da cultura da mesma.
    A pragmática, como já se aludiu neste trabalho, exerce uma importância crucial em qualquer interatividade entre indivíduos de culturas diferentes. No multiculturalismo do século XXI o estudo da importância do deslocamento cultural para a comunicação abarca a diminuição dos problemas de ambiguidade:

    De modo semelhante às cidades do Primeiro Mundo, muitas urbes latino americanas- ao mesmo tempo que são laboratórios de uma multiculturalidade desgradada – se desenvolvem como núcleos estratégicos de inovação comercial, informática e financeira que dinamiza o mercado local ao incorporá-los a circuitos transnacionais. (CANCLINI, 2008, p. 16)


    Como postula Canclini (2008) as grandes cidades se tornaram laboratórios de “multiculturalidade” e mesmo que não se planeje uma viagem internacional, todos os habitantes são vítimas da intensa globalização cultural. Para tanto, não há como fugir do deslocamento da identidade cultural. Bhabha (2007) completa:

    Quero me situar nas margens deslizantes do deslocamento cultural- isto torna confuso qualquer sentido profundo ou “autêntico” de cultura “nacional” ou de intelectual “orgânico” – e perguntar qual poderia ser a função de uma perspectiva teórica comprometida, uma vez que o hibridismo cultural é histórico do mundo Pós- colonial e tomado como lugar paradigmático de partida. (BHABHA, 2007, p. 46)



    1.5 Os embates culturais na rede: conhecendo a cultura do outro através da rede social


    A rede social dá possibilidade ao usuário de conhecer culturas diferentes da sua. Essa possibilidade é frequente em redes sociais internacionais, como o Facebook, ou o Linkedin, usados por internautas de dezenas de países.
    A possibilidade de conhecer a cultura do outro permite também um embate cultural, a percepção da diferença, em que:
    O hibridismo não se refere a indivíduos híbridos que podem ser contrastados com os “tradicionais” e “modernos” como sujeito plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural, agonístico, uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua indecidibilidade. (HALL, 2003:71)

    Nesse ínterim, o usuário alemão que queira conhecer os costumes brasileiros pode visitar perfis totalmente públicos10 de internautas brasileiros. Ele pode perceber duas pessoas (um homem e uma mulher) osculando-se no rosto ao se conhecer, em São Paulo, por exemplo, e achar estranho porque um homem e uma mulher não se beijam ao se conhecer na cultura dele. Um brasileiro, utilizando outro exemplo, pode estranhar ao ver escoceses de saia em um evento religioso do país deles e estranhar o uso daquela vestimenta.
    O embate é natural na rede ou em qualquer outro contexto intercultural. Entretanto, tal ato permite pensar as fronteiras da centralização de um pensamento, ou antes, de uma suposta racionalização desse pensamento que pressupõe grupos superiores a outros. Mesmo com todos os recortes científicos de importantes antropólogos, e demais teóricos das ciências humanas, a rede também é um espaço onde atos preconceituosos continuam acontecendo. Frequentemente a Justiça Federal ordena o cancelamento de páginas de usuários neonazistas, que incentivam a violência contra grupos considerados inferiores. No Brasil isso é inter-regional. Como o fato ocorrido em 2010, durante as eleições para a presidência da República em que um jovem de São Paulo postou no Twitter mensagens incentivando a violência contra nordestinos: “... alguém mate um nordestino.”.
    Em vários continentes a violência é intercultural. A briga por território, a fundação do estado de Israel pela ONU, dentre outros inúmeros fatores, fazem com que usuários, não raro, postem mensagens de cunho preconceituoso. Ser diferente, na Internet, pode apenas ser interpretado por alguém que queira conhecer a tal cultura do Outro, como por alguém que não goste dessa cultura.
    Diante desses fatos a Internet representa um avanço nas comunicações uma vez que permite novas formas de comunicação, mas também representa um perigo de ser usada por grupos neonazistas, como os Skin Heads e Ku Klux Klan.

    2. Materiais e métodos

    Para a realização da parte prática desta pesquisa, como materiais foram usadas, a fim de observação:

    - As páginas das redes sociais e todos os posts publicados;

    - O uso do chat em algumas redes sociais como Livemocha e aplicativos como o Windows Live Mensenger, em que os usuários de outras culturas eram arguidos sobre a sua cultura e a cultura do outro;

    - As postagens no microblog Twitter, em que diferentes pessoas de diferentes países publicavam suas ideias, representando suas culturas e seu modo peculiar de ver o mundo.


    Como métodos para a coleta de dados utilizou-se:

    - A observação e recorte de fatos interessantes que aconteceram, durante a pesquisa, na rede;

    - A anotação de dados importantes, para serem utilizados na redação de artigos, tais como exercícios interculturais para o aprendizado de Português Língua Estrangeira utilizados na rede social Livemocha;

    - A observação da ferramenta bate-papo através do teste de utilização para conversas informais;

    - Um questionário respondido pelo blog Português como Língua Estrangeira da UESC, projeto responsável pela pesquisa, em que o participante tinha que responder, em inglês, testando a sua frequência em blogs e nas redes sociais.

    As redes sociais utilizadas para análise foram Facebook e Livemocha, além de blogs contidos no portal Blogger. Tais redes encontram-se em expansão, o que facilitou o acesso e análise dos dados.
    Os dados foram coletados através da interação e arquivados no banco de dados do projeto Português como Língua Estrangeira da UESC.
    A coleta de dados, tal como foi posta, visa responder aos objetivos, ao destacar a observação do comportamento de redes sociais e blogs, em número finito, qualitativamente, para poder atribuir-lhes características do seu funcionamento discursivo e multicultural.
    A análise de dados deu-se a partir de uma rigorosa fundamentação com os postulados que guiam as discussões deste trabalho, pensando o impacto discursivo e intercultural das ferramentas pesquisadas.



    3. Resultados obtidos: análise qualitativa dos dados

    A partir da coleta e análise de dados percebeu-se, dentre outras coisas que:

    - Muito embora as redes sociais permitam que o usuário conheça outras culturas, essa atitude é mais comum em países onde as pessoas dominam mais de uma língua;



    - Os blogs que antes, como exemplifica Marcuschi (2005), eram usados como Diários Pessoais virtuais passam a ter outra estrutura. O aspecto de autopublicidade é transposto para a rede social. Esse aspecto é aquele em que o usuário fala sobre o seu humor, sobre fatos que aconteceram em sua vida, entre outros. Na rede social o usuário publica essa informação no Mural, ou pelo Twitter, como se demonstra abaixo:





    Imagem 1- Blog corporativo, usado para experiências linguísticas em sala de aula de Língua Estrangeira


    A imagem 1 demonstra como o comportamento dos blogs vêm mudando, sendo que o portal acima é utilizado para aulas de Língua Estrangeira em uma universidade pública. Portanto, ao que se percebe, ele não figura mais na esfera de Diário Pessoal como era há alguns anos, em sua utilização inicial.




    Imagem 2- publicidade no Facebook




    Como se pode perceber acima, as redes sociais de massa cada vez mais começaram a ser usadas por artistas, comerciantes, prestadores de serviços e outros profissionais como para publicidade. Isso é comum também nos blogs, como se percebe abaixo:



    Imagem 3- Blog de divulgação de canecas

    - A rede social permite o aprimoramento de uma língua estrangeira, porque o estudante dessa língua pode utilizar o recurso de chat e desenvolver o seu ato de escrita (ou de fala, se for um videochat) nessa língua através do bate-papo com um falante nativo daquela língua, como podemos ver abaixo:



    Imagem 4- Questionário proposto na rede social Livemocha

    - A partir da pesquisa bibliográfica realizada inicialmente, pode-se entender as postagens no Mural da rede social, ou Tweet, ou mesmo os textos observados em blogs, como suporte para discursos (ou mesmo os próprios discursos) provenientes das Instituições ou Aparelhos Ideológicos de Estado. Assim, uma mensagem que traga “Deus vai me salvar”, em seu corpo, se usada por um cristão está representando uma instituição, a Igreja.


    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Nesse sentido, faz-se oportuno investigar as relações de linguagem na Internet permeando a possibilidade que a rede dá ao usuário. Neste estudo, dentre outros aspectos, foram abordados aspectos de funcionamento da linguagem nas redes sociais e nos blogs, dentre os quais tiveram um recorte especial em outros trabalhos publicados a partir da pesquisa de Iniciação Científica que origina este trabalho.
    Partindo dos postulados da AD francesa, dos Estudos Culturais e apoiando-se em conceitos da Ecologia Cognitiva, assim como outros campos do saber, pretendeu-se atender a presente necessidade de investigar o uso de alguns dispositivos da rede. Chega-se a conclusões, após a realização dessa pesquisa, que a rede permite que interfaces discursivas nela se instalem e permitam a existência de uma comunicação intercultural.
    Dentre outros conceitos abordados, o Hibridismo do homem representado na Internet foi exemplificado com o comportamento nas redes sociais. Também nessa perspectiva o uso da imagem foi precisamente instalado no núcleo deste trabalho relacionando-o a evolução da técnica, ou mesmo da possibilidade de usá-las na rede de diferentes maneiras.
    Do ponto de vista prático os resultados da pesquisa que originou este trabalham mostram que muito embora propicie esse suporte de conhecer a cultura e aprimorar uma língua estrangeira através das redes sociais, isso nem sempre é percebido e utilizado. No Brasil, o desconhecimento em uma segunda língua (como o Inglês) faz com que muitos jamais se interessem pela cultura do outro.
    Assim, contempla-se a necessidade de investigar as relações de linguagem e a interculturalidade na rede, analisando alguns aspectos da mesma, através das redes sociais e blogs, deixando a possibilidade de outros trabalhos com o mesmo objeto empírico.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos do estado. 3. ed Lisboa: Presença, 1980.

    BHABHA, H. O Local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana L. L. Reis, Gláucia R. Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
    BRETÃS, B. Comunicação mediática no processo ensino/aprendizagem. In: COSTA, José Wilson da; OLIVEIRA, Maria Auxiliadora Monteiro. (orgs.) Novas linguagens e novas tecnologias: Educação e sociabilidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

    CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Ana Regina Lessa e Heloíza Pezza Cintrão. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2000.
    ______. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

    COSTA, J. W. da. ; PAIM, I. Informação e conhecimento no processo educativo. In: COSTA, José Wilson da; OLIVEIRA, Maria Auxiliadora Monteiro. (orgs.) Novas linguagens e novas tecnologias: Educação e sociabilidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

    ENGELS, F.; MARX, K. A Ideologia Alemã. Trad. Luis Claudio de Castro e Costa. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

    FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
    ________. A ordem do discurso: aula inaugural no collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 14.ed. São Paulo: Loyola, 2006.

    HALL, S. Da diáspora: Identidades e mediações culturais. Trad. Adelaine La Guardia Rezende ... [ et al]. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

    LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: O Futuro do Pensamento da
    Era da Informática. Trad. Carlos Irineu da Costa. 7 ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

    MAINGUENEAU, D. Gênese dos discursos. Trad. Sírio Possenti. Curitiba, PR: Criar Edições, 2007.

    MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, L.A.; XAVIER, A.C (orgs.) Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. 2ed. Rio de Janeiro: Lucerna. 2005.


    1 Licenciado em Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Departamento de Letras e Artes (DLA), foi Bolsista CNPq do programa de Iniciação Científica da instituição, com o Projeto: “Multiculturalismo na rede: os blogs e redes sociais como mecanismos de comunicação intercultural e a interface Português como Língua Estrangeira”.

    2 Professora do Departamento de Letras e Artes (DLA), do programa de Mestrado em Letras: Linguagens e Representações e pesquisadora responsável pelo projeto Português como Língua Estrangeira da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
    3 Os estudos da chamada Ecologia Cognitiva são utilizados neste trabalho a partir do viés abordado por Lévy (1993).
    4 Recorte retirado de Lévy (1993), o Eniac era utilizado pelas Forças Armadas norte-americanas.
    5 Até então a linguagem utilizada na construção de textos na base do Hipertexto era apenas o HTML (Hyper Text Markup Language)
    6 Postagem de 140 caracteres escrita pelo usuário no site de relacionamento Twitter.
    7 Gênero textual utilizado no site Facebook para postar mensagens.
    8 Um dos gêneros textuais utilizados no site Orkut para mandar mensagens.
    9 Livro com primeira publicação no século XIX.
    10 Existem perfis que não são completamente públicos, restringindo funções como o ato de ver fotografias.