Artigo originalmente publicado na Revista Intercâmbio (B2), no link http://revistas.pucsp.br/index.php/intercambio/article/view/20957/15429
Gabriel Nascimento dos SANTOS1 (Universidade Estadual de Santa Cruz)
Gabriel Nascimento dos SANTOS1 (Universidade Estadual de Santa Cruz)
RESUMO: Neste
estudo pretende-se investigar a colaboração das redes sociais e
blogs como propiciadores da existência de comunicação
intercultural. A comunicação intercultural acontece nos contextos
em que há a intersecção de duas ou mais culturas. Assim,
tenciona-se analisar sob quais medidas as redes sociais e blogs da
rede mundial de computadores estão funcionando como mecanismos de
comunicação intercultural, e sob o olhar da AD francesa, em que
autoridade discursiva se baseia a comunicação intercultural na
rede. Para a realização do presente trabalho, utilizamos a coleta
de dados, através de ferramentas virtuais, como blogs e redes
sociais, e analisamos as estratégias possíveis nesse contexto
virtual. Dentre os resultados, é possível destacar a possibilidade
de aprimorar o aprendizado de uma Língua Estrangeira e a mudança de
comportamento de alguns instrumentos de comunicação intercultural,
como os blogs, sendo utilizados para emparelhamento comercial, venda
e troca de produtos, além das demais utilidades.
PALAVRAS-CHAVE: Estudos
Culturais; Análise do Discurso; comunicação intercultural.
ABSTRACT:
This
paper aims at investigating the collaboration of the social
networking and blogs as providers of the existence of the
intercultural communication. The intercultural communication happens
in the contexts which there is some intersection between two or more
cultures. So, it aims to analyze how the social networks and the
blogs of the Internet are working as tools to the intercultural
communication, and with the point of view of the French Discourse
Analysis, what kind of discursive authority is based the
communication on the web. As a result, we may highlight the
possibility of improving the learning of a Foreign Language and
behavior change of some intercultural communication tools such as web
blogs, being used for pairing trade, sale and exchange of products,
in addition to other utilities.
Keywords:
Cultural
studies; discourse analysis; intercultural communication
Introdução
Desde a segunda metade do
século XX tem surgido uma necessidade de oficializar estudos sérios
que visem investigar o funcionamento das culturas, no sentido de
estudar a sua idiossincrasia, e pontuar que nenhuma cultura é
superior à outra, e que cada cultura, com suas peculiaridades, é
igualmente complexa.
Uma cultura não é
superior à outra, e isso todo estudioso de cultura já entende
proficientemente. O que o pesquisador do funcionamento do discurso e
das culturas tem pela frente é a forte demanda do surgimento e
divulgação da rede mundial de computadores, a Internet. A rede
World Wide
Web –
WWW, ou simplesmente web,
trouxe
para os âmbitos acadêmicos a discussão sobre qual seriam os
impactos dessa descoberta para o homem pós-moderno.
A rede mundial de
computadores, com seus dispositivos que permitem a autopublicidade e
comunicação, vem trazendo à tona algumas perguntas: como funciona
a comunicação intercultural na internet? Quais serão as
orientações ideológicas que se tornarão vigentes nesta nova etapa
do conhecimento humano? Com todos os impactos e estudos sobre o
respeito à idiossincrasia do outro o respeito é uma atitude
frequente na rede? Todas essas perguntas fazem parte do corpus
deste
trabalho.
Para tanto, é a partir
desse contexto que nasce a indagação proposta neste estudo, a qual
se concentra em compreender como se dá a comunicação intercultural
em redes sociais e blogs da Internet. Sendo esse o objetivo geral,
visamos responder ao questionamento específico: a) Como se articula
o discurso nas ferramentas estudadas?; b) Como os blogs e redes
sociais podem servir à comunicação intercultural e ao
multiculturalismo; c) Qual a relação entre língua e cultura na
apreensão e percepção dos usuários das redes sociais; c) Qual o
papel de tais ferramentas no contexto de produção discursiva? Do
ponto de vista teórico, justificamos o nosso interesse a partir das
concepções da Análise do Discurso (doravante AD) de linha francesa
e nos Estudos Culturais, assim como a abordagem da Ecologia
Cognitiva3
e as concepções de Lévy (1993). Como parte dos materiais e métodos
da realização dessa pesquisa foi realizada uma coleta de dados
entre alguns participantes das redes sociais mais populares no Brasil
e no exterior Facebook, Twitter, Orkut e Livemocha. Dessa coleta de
dados surge este trabalho como apresentação de resultados.
Ao iniciar este trabalho
esperava-se perceber na rede social um espaço de comunicação
intercultural, em que o usuário se reconhecesse originário de uma
cultura, mas com possibilidade de perceber a rede social como espaço
multicultural.
Esperava-se, também, que
os blogs continuassem a ser usados como Diários
Pessoais na
Internet, e que a rede social e microblog apenas desempenhassem um
papel de ferramentas comunicativas em que um usuário mandasse um
pequeno texto como mensagem para amigos
virtuais, de
forma similar ao E-mail.
Os
resultados dão conta de corroborar alguns dos resultados esperados e
refutar outros, como é o caso da rede social como espaço
multicultural, na qual se pode aprimorar a atividade linguística,
mas refutar a ideia de que os blogs funcionam apenas como gênero de
interlocução que funcionem como Diários
Pessoais.
1. Pressupostos teóricos
1.1 A técnica e o
savoir-faire:
o suporte
e a construção de conhecimento
Discutir a importância de
quaisquer dispositivos na rede que permitam o acontecimento da
comunicação insere na esfera da discussão a importância dos
suportes e descobertas que levaram a tal. Tanto Marcuschi (2005)
quanto Lévy (1993) demonstram que uma evolução no hardware
desde a
invenção do primeiro computador, o Eniac,
que pesava
30 toneladas e ocupava um andar inteiro da estação onde ficava, nos
Estados Unidos4,
permitiu
que outras interfaces pudessem ser produzidas.
A Apple, por exemplo,
durante muito tempo veiculou computadores sem tela, que na maioria
das vezes só eram comprados e utilizados por programadores. O
surgimento e distribuição da tela, teclado e mouse, ou ainda a
construção do primeiro Computador pessoal, tal como se concebe
hoje, traz ao bojo das discussões dispositivos que dão propriedade
à qualquer pessoa a manusear um computador. Há também, nesse
ínterim, uma evolução nas linguagens, já que a oportunidade de
escrever um texto em modo Rich
Text permitiu
a muitos leitores tornarem-se autores de texto na rede.5
Não se pode esquecer que as linguagens HTML,
JAVA, PHP, entre
outras, continuam sendo os sistemas de linguagem norteadores da
produção de um hipertexto e os mais usados por webdesigners.
Entretanto, a grande discussão a ser feita é sobre a técnica de
interfacear
tais linguagens a fim de que qualquer pessoa, usando um programa como
o criador de sites Dreamweaver,
ou um
servidor de blog como o Blogger
possa
postar textos, mesmo desconhecendo as tags
e códigos
das linguagens supracitadas. Todo esse recurso é tratado por Lévy
(1993) como a propriedade da técnica.
Inscrevendo a técnica como
propiciadora da construção do savoir-faire
humano
Lévy (1993) enuncia que:
Vivemos hoje uma
redistribuição da configuração do saber que se havia estabilizado
no século XVII com a generalização da impressão. Ao desfazer e
refazer as ecologias cognitivas, as tecnologias intelectuais
contribuem para fazer derivar as fundações culturais que comandam
nossa apreensão do real. [...] (LÉVY, 1993:10)
E completa que:
[...] Basta que alguns
grupos sociais disseminem um novo dispositivo de comunicação, e
todo o equilíbrio das representações e das imagens será
transformado, como vimos no caso da escrita, do alfabeto, da
impressão, ou dos meios de comunicação e transporte modernos.
(Op. Cit.:10)
Assim, a construção do
saber, o savoir-faire
é
condicionado pela prática da técnica. É ainda a técnica que
imporá limites à construção do saber-fazer.
Se uma nova interface comunicativa surge hoje, a partir de amanhã
todas as outras empresas do setor começarão a projetar quais
adequações deverão ser feitas para que esse invento possa
funcionar adequadamente em todos os lugares do planeta. Um último
exemplo, no Brasil, foi a chegada da qualidade HDMI
(High Definition Multimedia Interface),
TV digital
e de alta definição,
que fez
com que a indústria produzisse adaptadores de sinal. Esse é um dos
muitos exemplos que comprovam que interfaces têm que surgir quando
um novo dispositivo tecnológico é criado.
Portanto, é ainda a técnica
que dá suportabilidade à existência de comunicação intercultural
na rede, como destacam Costa e Paim (2004):
No quadro delineado ganha
relevância um processo que se realimenta continuamente: o conjunto
das tecnologias da informação, chamadas novas tecnologias (NTs),
que são usadas para o tratamento das informações, que, por sua
vez, geram demandas tecnológicas. Assim, as NTs são ferramentas de
um sistema em contínua transformação. (COSTA e PAIM, 2004: 16)
Desse modo, antes da
existência da rede social como lugar de comunicação intercultural
surgiu a técnica de permitir que um computador possa se comunicar
com outros computadores. Na década de 90 essa prática de
comunicação entre dois ou mais computadores apenas era frequente
nas universidades, entre alunos dos cursos da área de computação e
nas forças armadas americanas, para operações militares. Segundo
aponta Marcuschi (2005) o uso das listas de discussões (os
conhecidos fóruns
entre os
internautas brasileiros) cresceu rapidamente após a popularização
da Internet. Isso comprova uma necessidade do internauta de usar
quaisquer formas de ferramentas que surjam como dispositivo de
comunicação. É preciso olhar o telégrafo, o telefone, o rádio e
a televisão como objetos de comunicação, o que propiciou um
pensamento voltado à necessidade da comunicação.
A dialética da técnica
traz à tona que o homem pós-moderno vive em volta do ato de poder
se comunicar, e comunicar com novas culturas e com o desconhecido e
quaisquer novos aparelhos que venham a surgir devem trazer consigo
interfaces que permitam a comunicação.
1.2 A identidade cultural na
Pós-modernidade: o papel influenciador da rede
Tais investigações acerca
da rede trazem a necessidade de analisar quais as influências da
mesma para a identidade cultural de cada pessoa. Nos estudos
Pós-colonialistas e Pós-estruturalistas o teórico dos Estudos
Culturais Homi
Bhabha traz
reflexões oportunas a perceber sobre a representação desse homem
pós-moderno na rede.
Bhabha (2007) propõe que a
identidade do homem pós-colonial e pós-moderno é fragmentada,
ambivalente e transitória. E afirma: “Para a identificação, a
identidade nunca é à
priori, nem
um produto acabado; ela é apenas e sempre o processo problemático
de acesso a uma imagem da totalidade”. (BHABHA, 2007: 85, grifo do
autor). Dessa forma:
De que modo chegam a ser
formuladas estratégias de representação ou aquisição de poder
[empowerment] no interior das pretensões concorrentes de comunidades
[...] A representação da diferença não deve ser lida
apressadamente com o reflexo de traços culturais ou étnicos
pré-estabelecidos, inscritos na lápide fixa da tradição.
(BHABHA, 2007:20)
Nesse sentido, qual seria o
papel influenciador da rede social e de outros dispositivos da
Internet para a construção desse perfil discursivo da identidade
pós-moderna? Nas redes sociais pessoas de diferentes culturas se
conhecem. O sucesso ou não nessa comunicação depende da leitura
sobre o perfil identitário do outro, da leitura presa ou não a uma
tradição etnocêntrica, falocêntrica, patriarcalista, em que há
gêneros, etnias e culturas inferiores e superiores. Uma comunicação
voltada a essa atitude pode propiciar ruptura no ato comunicativo.
O homem virtual é uma
representação do homem real e seu comportamento nos modos de
produção capitalista. Essa representação simbólica do homem real
é produto das recentes invenções tecnológicas, da ascensão da
fotografia e a sua indissociabilidade do discurso do moderno, da
hipermídia, da transposição da identidade para a rede. Portanto,
para não haver anacronismo, é preciso lembrar de todas as
revoluções que antecederam a rede mundial de computadores. Esse
homem, ao dizer de Canclini (2000), é fragmentado e aquele que lê
gêneros que vão do tradicional ao moderno, porque “a incerteza
em relação ao sentido e ao valor da modernidade deriva não apenas
do que separa nações, etnias e classes, mas também dos cruzamentos
socioculturais em que o tradicional e o moderno se misturam.”
(CANCLINI, 2000: 18, grifo do autor)
Os estudos contemporâneos
da Linguística Aplicada e da Pragmática Intercultural têm
permitido pensar qual o papel dos Aparelhos Ideológicos de Estado ou
instituições, tais como escola, diante das possibilidades da rede
para o ensino. Entretanto, relacionando essa oportunidade com a
transformação desse homem, produto das revoluções da técnica,
pode-se perceber que esse tal ser da pós-modernidade é influenciado
pela rede, pela rapidez com que a imagem perpassa seu olhar, pela
possibilidade de reunir várias formas de linguagem juntas, tais como
áudio, vídeo e imagem. O homem pós-moderno é híbrido, segundo
concebe Canclini (2000), e o surgimento da Internet possibilitou com
que esse homem pudesse alçar mais representações de si mesmo na
rede.
É necessário que se pense
o hibridismo advindo de uma série de fatores, como a globalização,
projetos de reestruturação capitalista e o discurso neoliberal, em
que o homem consome outras culturas através das marcas, dos
outdoors,
da
publicidade televisiva e radiofônica e no jornal impresso, entre
outros meios de divulgação. A rede permite que esse homem se torne
ainda mais híbrido. Tais comportamentos podem ser corroborados,
através dos resultados desta pesquisa:
- Numa relação
intercultural na rede os usuários se tornam amigos de várias
pessoas que conhecem por meio da rede e cujas jamais viram nos
contextos materiais, do mundo não virtual. Ao conhecer essas pessoas
acontecem embates culturais e os discursos gerados são concernentes
ao tão somente ato de conhecer a cultura alheia. Essas pessoas não
sabem sequer o nome verdadeiro dos novos
amigos, mas
trocam informações de sua cultura com eles, e aprendem com eles
seus comportamentos idiossincráticos;
- As pessoas se perdem,
sobremodo, nas relações simbólicas de linguagem, chegando a
utilizar diversos gêneros da escrita ao mesmo tempo, produzindo um
efeito do discurso múltiplo de sua identidade em diferentes
contextos. Ex: Um usuário escreve um Tweet6,
uma
postagem no mural
do
Facebook, manda um e-mail
formal
para sua orientadora e um recado
para um amigo bem íntimo. São gêneros textuais diferentes, e,
portanto, que requerem diferentes comportamentos linguísticos. No
Tweet ele
só pode postar 140 caracteres, enquanto que mural7
a mensagem
geralmente pode trazer marcas da publicidade de outros sites, através
da de links,
assim como
imagens, permitindo que outros comentem, enquanto que no e-mail
a
linguagem terá que ser formal e bastante monitorada do ponto de
vista ortográfico, e no recado8
essa
escrita altamente monitorada é dispensada, ficando a possibilidade
de aproximar-se dos usos do seu interlocutor.
A identidade, como a própria
linguagem e sua utilidade, não é a mesma, sendo, dessa forma,
ambivalente, híbrida e transitória. Os exemplos anteriores são
alguns poucos dos muitos que esta e outras pesquisas tentam abranger.
De outra feita, tal como foi abordado anteriormente, a técnica está
a serviço da necessidade de comunicar. Na rede social e no
microblog
Twitter o
usuário vê passar muito rapidamente, diante de sua face, mensagens
com diferentes linguagens, de diferentes culturas e de diferentes
autores.
O homem virtual é,
portanto, a representação simbólica e discursiva do homem real,
resultante das revoluções tecnológicas do século XX, da cultura
da impressão, do surgimento da fotografia, dos discursos
modernistas, da possibilidade de dois ou mais computadores cruzarem
dados e, logo após manterem comunicação.
1.3 A pós-modernidade e o
discurso da imagem: a dialética da representação
Já se tornou um fato
marcante para o homem pós-moderno o surgimento da rede mundial de
computadores e de outros dispositivos tecnológicos. É preciso,
entretanto, analisar quais são as marcas da imagem nesse espaço de
cultura que são as redes sociais.
O comportamento discursivo
na rede é voltado para a representação simbólica do homem
consumista, multicultural e híbrido da Pós-modernidade. Portanto,
como foi discutido na seção anterior, não foi na rede que o homem
ganhou a conotação de multicultural ou híbrido, mas é a mesma que
funciona como mais um suporte para a representação desse homem.
É indubitável entender
que a imagem (ou antes, a utilização do ato de representar
simbolicamente) está claramente indissociável nas relações de
linguagem na rede. Faz-se oportuno destacar que, como destacam
Althusser (1980) e Foucault (1997; 2006), todo discurso parte dos
Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), as instituições (escola,
igreja, mídia). Na rede social, ao postar uma mensagem pública, o
mural, o
usuário está repetindo discursos internalizados nas instituições.
Para tanto, o usuário, na rede social, está representando as
instituições que ele participa.
Deste modo, a imagem, na
rede, é uma representação do discurso capitalista, consumista e
neoliberal instaurado pela mídia e pela técnica do marketing
e não o
primeiro ato de enunciação desse discurso. Com a rede, a vida das
pessoas se tornou bastante ligada a dispositivos, tais como jogos, o
que fez com que elas deixassem confusas quem não faz parte desse
mundo. Recentemente, no Orkut e Facebook – redes sociais –
surgiram dispositivos (os apps),
que podem
ser usados, como por exemplo :
- Os jogos, tais como
Colheita
Feliz e
Mini
Fazenda
permitiram
que pessoas fizessem uma fazenda virtual, e cultivassem espécies
vegetais, assim como fizessem uso da pecuária virtual. Não
raramente pessoas, no mundo real, falam: “Tenho que dar comida aos
animais, tenho que molhar a minha horta”, etc. As pessoas que não
aderiram a essas redes ou não fazem parte desses contextos acreditam
estar doido aquele falante urbano (como cultivar uma horta em uma
cidade grande?). Há, portanto, uma incompreensão na comunicação
causada pela confusão entre representação e objeto representado.
A vida dessas pessoas passa
então a ser influenciada pelas representações simbólicas delas na
rede. O que sugere um processo de reificação
(do latim res= coisa) ou
coisificação.
Engels e
Marx (2007)9
já abordavam esse processo como produto das relações capitalistas,
em que o sujeito é condicionado a se tornar coisa,
ou produto
que leva ao super lucro.
A rede, além de ser um
espaço das relações interculturais, é o espaço para repetição
dos status
quo e do
modus
vivendi das
classes dominantes. A imagem do perfil da rede social tem que ser a
melhor, aquela em que o usuário esteja usando roupas da moda, uma
imagem bem tratada pelo programa de edição de imagens Photoshop,
entre
outros.
A frequência e a
forma como a imagem vem sendo usada na rede oportunizam discussões
sobre qual a influência de uma Indústria como instituição que
lucra sobre o resultado da repetição do discurso da imagem. Se as
pessoas divulgam suas imagens na rede social obedecendo aos moldes e
padrões da moda, elas estão incentivando o consumo ainda maior na
indústria, o que contempla a mídia, alcançado mais especificamente
indústrias têxteis e de calçados, entre outros. Dessa forma,
existe um pensamento capitalista por trás das cenas discursivas em
que os sujeitos se apropriam de um discurso inconscientemente,
internalizando-o nas instituições ou Aparelhos
Ideológicos de Estado, tais
como mídia e escola. Desse modo:
Dessa maneira, o propósito
dessa reflexão é contextualizar a comunicação contemporânea,
identificando a Internet como aparato peculiar, apropriado a
comportar conteúdos multimídia e a produzir novas formas para as
interações sociais. Na perspectiva de um meio de comunicação que
abriga vários outros, a Internet é apresentada como um espaço
possível de interlocução de diversos atores sociais que se
expressam e que leem as mensagens que povoam o ciberespaço. (BRETÃS,
2004: 85)
E Maingueneau (2007:117)
completa que:
Isto equivale a dizer que o
discurso não pode convencer, já que não se pode mostrar uma
exterioridade entre o código de referência e as interpretações
dos discursos que se fundam nele. O público não é convencido pelos
argumentos expressos, mas pela própria enunciação desses
argumentos por tal discurso, isto é, pelo universo de sentido ao
qual remete este último. Coerentemente, o discurso convence porque
ia pela nossa cabeça o que já convencia, mais ou menos
obscuramente. [...]
Torna-se, pois, relevante
pensar o comportamento discursivo na rede, a autoridade para a
realização de sua enunciação e as instituições que esse
discurso representa. Tal discurso é também intercultural porque
alça perfis que, assistidos por milhões de pessoas no mundo, serão
igualmente repetidores do discurso do consumo.
1.4 Deslocamento identitário
e cultural
Num mundo de intensa
globalização, dos modos de produção cibernéticos, das
tecnologias da informação e da inteligência, as relações de
poder e a cultura também são intensamente globalizadas, como
corrobora Canclini (2008):
A globalização não é um
simples processo de homogeneização, mas de reordenamento das
diferenças e desigualdades, sem suprimi-las: por isso, a
multiculturalidade é um tema indissociável dos movimentos
globalizados. (CANCLINI, 2008, p. 11)
Assim, não há como falar
de multiculturalismo e não falar de deslocamento cultural. Ele
ocorre quando uma identidade interage com outra de uma cultura
distinta. A partir do momento que se interage com outra cultura o
sujeito deixa de ser o mesmo, passando por uma adaptação. Há casos
frequentes de pessoas que viajam a negócio para outros países,
sabem se comunicar na língua, entretanto, em uma reunião de
negócios usam uma linguagem coloquial. No inglês, por exemplo, a
forma “Hi” (Oi) não seria bem recebida em uma reunião de
negócios, com pessoas desconhecidas. O mais provável é que seria
bem recebido um “Good morning” (Bom dia), um “Good afternoon”
(Boa noite) ou ainda um “Good evening” (Boa noite). Esse só é
um exemplo de como é necessário perpassar o aprendizado estrutural
da língua-alvo e buscar o aprendizado da cultura da mesma.
A pragmática, como já
se aludiu neste trabalho, exerce uma importância crucial em qualquer
interatividade entre indivíduos de culturas diferentes. No
multiculturalismo do século XXI o estudo da importância do
deslocamento cultural para a comunicação abarca a diminuição dos
problemas de ambiguidade:
De modo semelhante às
cidades do Primeiro Mundo, muitas urbes latino americanas- ao mesmo
tempo que são laboratórios de uma multiculturalidade desgradada –
se desenvolvem como núcleos estratégicos de inovação comercial,
informática e financeira que dinamiza o mercado local ao
incorporá-los a circuitos transnacionais. (CANCLINI, 2008, p. 16)
Como postula Canclini
(2008) as grandes cidades se tornaram laboratórios de
“multiculturalidade” e mesmo que não se planeje uma viagem
internacional, todos os habitantes são vítimas da intensa
globalização cultural. Para tanto, não há como fugir do
deslocamento da identidade cultural. Bhabha (2007) completa:
Quero me situar nas margens
deslizantes do deslocamento cultural- isto torna confuso qualquer
sentido profundo ou “autêntico” de cultura “nacional” ou de
intelectual “orgânico” – e perguntar qual poderia ser a função
de uma perspectiva teórica comprometida, uma vez que o hibridismo
cultural é histórico do mundo Pós- colonial e tomado como lugar
paradigmático de partida. (BHABHA, 2007, p. 46)
1.5 Os embates culturais na
rede: conhecendo a cultura do outro através da rede social
A rede social dá
possibilidade ao usuário de conhecer culturas diferentes da sua.
Essa possibilidade é frequente em redes sociais internacionais, como
o Facebook,
ou o Linkedin,
usados por
internautas de dezenas de países.
A possibilidade de conhecer
a cultura do outro permite também um embate cultural, a percepção
da diferença, em que:
O hibridismo não se refere
a indivíduos híbridos que podem ser contrastados com os
“tradicionais” e “modernos” como sujeito plenamente formados.
Trata-se de um processo de tradução cultural, agonístico, uma vez
que nunca se completa, mas que permanece em sua indecidibilidade.
(HALL, 2003:71)
Nesse ínterim, o usuário
alemão que queira conhecer os costumes brasileiros pode visitar
perfis totalmente públicos10
de internautas brasileiros. Ele pode perceber duas pessoas (um homem
e uma mulher) osculando-se no rosto ao se conhecer, em São Paulo,
por exemplo, e achar estranho porque um homem e uma mulher não se
beijam ao se conhecer na cultura dele. Um brasileiro, utilizando
outro exemplo, pode estranhar ao ver escoceses de saia em um evento
religioso do país deles e estranhar o uso daquela vestimenta.
O embate é natural na rede
ou em qualquer outro contexto intercultural. Entretanto, tal ato
permite pensar as fronteiras da centralização de um pensamento, ou
antes, de uma suposta racionalização desse pensamento que pressupõe
grupos superiores a outros. Mesmo com todos os recortes científicos
de importantes antropólogos, e demais teóricos das ciências
humanas, a rede também é um espaço onde atos preconceituosos
continuam acontecendo. Frequentemente a Justiça Federal ordena o
cancelamento de páginas de usuários neonazistas, que incentivam a
violência contra grupos considerados inferiores.
No Brasil
isso é inter-regional. Como o fato ocorrido em 2010, durante as
eleições para a presidência da República em que um jovem de São
Paulo postou no Twitter mensagens incentivando a violência contra
nordestinos:
“... alguém mate um nordestino.”.
Em vários continentes a
violência é intercultural. A briga por território, a fundação do
estado de Israel pela ONU, dentre outros inúmeros fatores, fazem com
que usuários, não raro, postem mensagens de cunho preconceituoso.
Ser diferente, na Internet, pode apenas ser interpretado por alguém
que queira conhecer a tal cultura do Outro, como por alguém que não
goste dessa cultura.
Diante desses fatos a
Internet representa um avanço nas comunicações uma vez que permite
novas formas de comunicação, mas também representa um perigo de
ser usada por grupos neonazistas, como os Skin
Heads e Ku Klux Klan.
2. Materiais e métodos
Para a realização da
parte prática desta pesquisa, como materiais foram usadas, a fim de
observação:
- As páginas das redes
sociais e todos os posts
publicados;
- O uso do chat
em algumas
redes sociais como Livemocha
e aplicativos como o Windows
Live Mensenger, em
que os usuários de outras culturas eram arguidos sobre a sua cultura
e a cultura do outro;
- As postagens no microblog
Twitter, em
que diferentes pessoas de diferentes países publicavam suas ideias,
representando suas culturas e seu modo peculiar de ver o mundo.
Como métodos para a coleta
de dados utilizou-se:
- A observação e recorte
de fatos interessantes que aconteceram, durante a pesquisa, na rede;
- A anotação de dados
importantes, para serem utilizados na redação de artigos, tais como
exercícios interculturais para o aprendizado de Português Língua
Estrangeira utilizados na rede social Livemocha;
- A observação da
ferramenta bate-papo
através
do teste de utilização para conversas informais;
- Um questionário
respondido pelo blog Português como Língua Estrangeira da UESC,
projeto responsável pela pesquisa, em que o participante tinha que
responder, em inglês, testando a sua frequência em blogs e nas
redes sociais.
As redes sociais utilizadas
para análise foram Facebook
e Livemocha,
além de
blogs contidos no portal Blogger.
Tais redes
encontram-se em expansão, o que facilitou o acesso e análise dos
dados.
Os dados foram coletados
através da interação e arquivados no banco de dados do projeto
Português como Língua Estrangeira da UESC.
A coleta de dados, tal como
foi posta, visa responder aos objetivos, ao destacar a observação
do comportamento de redes sociais e blogs, em número finito,
qualitativamente, para poder atribuir-lhes características do seu
funcionamento discursivo e multicultural.
A análise de dados deu-se a
partir de uma rigorosa fundamentação com os postulados que guiam as
discussões deste trabalho, pensando o impacto discursivo e
intercultural das ferramentas pesquisadas.
3. Resultados obtidos:
análise qualitativa dos dados
A partir da coleta e
análise de dados percebeu-se, dentre outras coisas que:
- Muito embora as redes
sociais permitam que o usuário conheça outras culturas, essa
atitude é mais comum em países onde as pessoas dominam mais de uma
língua;
- Os blogs que antes, como
exemplifica Marcuschi (2005), eram usados como Diários
Pessoais virtuais
passam a ter outra estrutura. O aspecto de autopublicidade é
transposto para a rede social. Esse aspecto é aquele em que o
usuário fala sobre o seu humor, sobre fatos que aconteceram em sua
vida, entre outros. Na rede social o usuário publica essa informação
no Mural,
ou pelo
Twitter,
como se
demonstra abaixo:

Imagem 1- Blog
corporativo,
usado para experiências linguísticas em sala de aula de Língua
Estrangeira
A imagem 1 demonstra como o
comportamento dos blogs
vêm
mudando, sendo que o portal acima é utilizado para aulas de Língua
Estrangeira em uma universidade pública. Portanto, ao que se
percebe, ele não figura mais na esfera de Diário
Pessoal como
era há alguns anos, em sua utilização inicial.

Imagem 2- publicidade no
Facebook

Como se pode perceber acima,
as redes sociais de massa cada vez mais começaram a ser usadas por
artistas, comerciantes, prestadores de serviços e outros
profissionais como para publicidade. Isso é comum também nos blogs,
como se
percebe abaixo:

Imagem 3- Blog de divulgação
de canecas
- A rede social permite o
aprimoramento de uma língua estrangeira, porque o estudante dessa
língua pode utilizar o recurso de chat
e
desenvolver o seu ato de escrita (ou de fala, se for um videochat)
nessa
língua através do bate-papo
com um
falante nativo daquela língua, como podemos ver abaixo:

Imagem 4- Questionário
proposto na rede social Livemocha
- A partir da pesquisa
bibliográfica realizada inicialmente, pode-se entender as postagens
no Mural da
rede social, ou Tweet,
ou mesmo
os textos observados em blogs, como suporte para discursos (ou mesmo
os próprios discursos) provenientes das Instituições ou Aparelhos
Ideológicos de Estado. Assim,
uma mensagem que traga “Deus
vai me salvar”, em
seu corpo,
se usada
por um cristão está representando uma instituição, a Igreja.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse sentido, faz-se
oportuno investigar as relações de linguagem na Internet permeando
a possibilidade que a rede dá ao usuário. Neste estudo, dentre
outros aspectos, foram abordados aspectos de funcionamento da
linguagem nas redes sociais e nos blogs, dentre os quais tiveram um
recorte especial em outros trabalhos publicados a partir da pesquisa
de Iniciação Científica que origina este trabalho.
Partindo dos postulados da
AD francesa, dos Estudos Culturais e apoiando-se em conceitos da
Ecologia
Cognitiva,
assim como outros campos do saber, pretendeu-se atender a presente
necessidade de investigar o uso de alguns dispositivos da rede.
Chega-se a conclusões, após a realização dessa pesquisa, que a
rede permite que interfaces discursivas nela se instalem e permitam a
existência de uma comunicação intercultural.
Dentre outros conceitos
abordados, o Hibridismo
do homem
representado na Internet foi exemplificado com o comportamento nas
redes sociais. Também nessa perspectiva o uso da imagem foi
precisamente instalado no núcleo deste trabalho relacionando-o a
evolução da técnica, ou mesmo da possibilidade de usá-las na rede
de diferentes maneiras.
Do ponto de vista prático
os resultados da pesquisa que originou este trabalham mostram que
muito embora propicie esse suporte de conhecer a cultura e aprimorar
uma língua estrangeira através das redes sociais, isso nem sempre é
percebido e utilizado. No Brasil, o desconhecimento em uma segunda
língua (como o Inglês) faz com que muitos jamais se interessem pela
cultura do outro.
Assim, contempla-se a
necessidade de investigar as relações de linguagem e a
interculturalidade na rede, analisando alguns aspectos da mesma,
através das redes sociais e blogs, deixando a possibilidade de
outros trabalhos com o mesmo objeto empírico.
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1
Licenciado em Letras da
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Departamento de Letras e
Artes (DLA), foi Bolsista CNPq do programa de Iniciação Científica
da instituição, com o Projeto: “Multiculturalismo na rede: os
blogs e redes sociais como mecanismos de comunicação intercultural
e a interface Português como Língua Estrangeira”.
2
Professora do
Departamento de Letras e Artes (DLA), do programa de Mestrado em
Letras: Linguagens e Representações e pesquisadora responsável
pelo projeto Português como Língua Estrangeira da Universidade
Estadual de Santa Cruz (UESC).
3
Os estudos da chamada Ecologia Cognitiva são utilizados neste
trabalho a partir do viés abordado por Lévy (1993).
4
Recorte retirado de Lévy (1993), o Eniac
era utilizado pelas Forças
Armadas norte-americanas.
5
Até então a linguagem utilizada na construção de textos na base
do Hipertexto era apenas o HTML
(Hyper Text Markup Language)
6
Postagem de 140 caracteres escrita pelo usuário no site de
relacionamento Twitter.
7
Gênero textual utilizado no site Facebook para postar mensagens.
8
Um dos gêneros textuais utilizados no site Orkut para mandar
mensagens.
9
Livro com primeira publicação no século XIX.
10
Existem perfis que não são completamente públicos, restringindo
funções como o ato de ver fotografias.