Gabriel
Nascimento
Embora
todas as áreas e subáreas dos estudos linguísticos e sociais adorem falar que a
língua muda, que tudo depende do contexto ou que a língua serve para
comunicação, esses conceitos básicos muitas vezes não passam de terminologia
isolada. Essa visão supostamente contra-hegemônica sobre homogeneidade, no
entanto, parece não se sustentar, como lembra o linguista Lynn Mário Trindade Menezes
de Souza no artigo Cultura, Língua e
Emergência Dialógica, publicado no número 26 da Revista Letras & Letras
(SOUZA, 2010).
Nesse
texto, Souza (2010) parece desconfiar das nomenclaturas ou terminologias
frágeis, mesmo nas teorias pós-estruturalistas, levando em conta que a própria
crítica da homogeneidade da modernidade é esquecida por algumas teorias. Assim,
resenha as noções de língua, cultura e língua partindo da construção humanista
no projeto da modernidade, partindo de Locke. A partir daí, parte para o jogo
da estrutura e da cultura, onde critica os meandros de uma crítica da
heterogeneidade aqui e ali, seja pela boa intenção ou acaso de autores como
Geertz. Este último, segundo Souza (2010), atribui à heterogeneidade os
conflitos étnicos, como se não fosse a homogeneidade e o humanismo as causas
primordiais de tantos conflitos em torno das comunidades imaginadas modernas
(ANDERSON, 1991).
Aliás,
Anderson (1991) parece guiar boa parte das indagações de Souza, não somente
sobre o conceito de nação, mas principalmente sobre o conceito de comunidade,
aqui vista como construção epistêmica. Esse tipo de crítica floresce para dar
destaque à noção de que não somente as nações são comunidades imaginadas, mas a
própria língua, a linguística e as ciências sociais. Isso dialoga ao que temos
reconhecido como novos idealismos nas ciências sociais.
Embora
não diretamente engajado a reconhecer esses novos idealismos, Souza estabelece,
baseando-se em Raymond Williams, Derrida, Howard-Malverde e alguns outros
teóricos, a noção de emergente. Junta isso ao dialogismo bakhtiniano,
principalmente por entender a performatividade emergente da linguagem, juntando
à ideia de suplementação derridiano, deixando-se invocar com clareza a ideia de
que língua e cultura constantemente são criadas e recriadas. Nesse contexto,
não se pode falar em criar e recriar sem falar de hibridismo, pois a própria
noção de emergência dialógica na língua e na cultura não sobrevive sem esse
contexto. Ainda sobre o hibridismo, e deixando mais destacada sua crítica,
critica a noção de origem não corrompida ou purista quando diz que “hibridismo
é origem e não resultado; ele surge no meio de e caracteriza as complexas e
sempre heterogêneas forças sociais e culturais” (SOUZA, 2010, p. 301). Ou seja,
ao ser origem, o hibridismo não permite a ideia de um bom selvagem, ou de uma língua e cultura puras, depois misturadas e
hibridizadas. A hibridização já é um processo de origem, sempre suplementado.
A
leitura atenta de Souza (2010) parece nos florescer bons rumos para pensar os
novos idealismos nas ciências sociais, e como eles confunde metafísica e
ciência com uma naturalidade, a partir da recente guinada de homogeneização
disfarçada de um discurso antimoderno, antidecolonial e rejeitando toda e
qualquer epistemologia, propondo uma inversão desregrada do papel da ciência,
fortalecendo o rebaixamento da ciência como possibilidade de construção de
respostas à sociedade, aos moldes de Said (2005).
Referências
ANDERSON,
B. Comunidades imaginadas:
reflecções sobre a origem e a expansão do nacionalismo. Lisboa: Edições 70,
1991.
SAID,
E. W.. Representações do intelectual: as
Conferências Reith de 1993. Tradução: Milton Hatoum. São Paulo: Companhia
das Letras, 2005.
SOUZA,
Lynn Mario Trindade Menezes de. Cultura, Língua e Emergência Dialógica. Letras & Letras, v. 26, p. 289-306,
2010.