• Walsh: da decolonialidade epistêmica a um mau tratamento das identidades étnicas pelo racismo epistêmico/científico



    Esta resenha foi escrita por mim exclusivamente para a disciplina  Interculturalidade: políticas pedagógicas e internacionalização, ministrada pelo Prof. Dr. Lynn Mario, e também produto resultante do grupo de pesquisa
    Projeto Nacional de Letramentos: Linguagem, Cultura, Educação e Tecnologia, da Universidade de São Paulo.





    Ladeada pelos sociólogos Aníbal Quijano, Edgardo Lander, Ramón Grosfoguel e Agustín Lao-Montes, pelos semiologistas Walter Mignolo e Zulma Palermo, todos do coletivo Modernidade/Colonialidade, importante grupo de teóricos pesquisadores e teóricos decoloniais, Catherine Walsh é pedagoga. A sua ênfase em currículo não despreza o olhar atento sobre as políticas de interculturalidade.
                É o que apresenta no texto Interculturalidade e colonialidade do poder: um pensamento e posicionamento “outro” a partir da diferença colonial,[1] aqui discutido a partir do lugar de fala afrobrasileiro e latino-americano. Em primeiro lugar, revisitando suas leituras dos movimentos decoloniais e culturais, a noção de “outro” (prática outra, posicionamento outro, lógica outra etc.) nos leva a uma posição de desconfiança. Esse “outro” teria o relevo e a fortuna crítica do “outro” já explorado aqui e ali pelo ocidental (Cf. SAID, 1996)? Por que teríamos essa preocupação com uma pesquisadora/teórica de um grupo que propõe decolonialidade em seu enredo principal? Primeiro porque deveríamos estar desconfiados por qualquer “outrismo” que disfarce sua alteridade para se ler e ler o outro a partir de sua falsa posição holística e êmica herdada da farsa exercida secularmente pelos objetos de estudo da antropologia moderna e sua aparelhagem etnográfica. Mas Walsh não enreda por esse lado.
                A desconstrução do conceito de “outro”, na visão da autora, parte de sua visão crítica sobre a relação da interculturalidade com a colonialidade do poder. Ao contrário do que se pretende aqui inicialmente, a autora parece dar uma leve indireta nas teorias pós-modernas de desconstrução da modernidade através de um olhar exclusivamente europeu, ao afirmar:

    ¿Qué significa hablar de “giro epistémico” en relación con el concepto de interculturalidad y cuál es su incidencia en el programa del movimiento indígena? En mi continuado diálogo con el movimiento indígena y desde mi comprensión de la construcción conceptual, interculturalidad representa una lógica, no simplemente un discurso, construido desde la particularidad de la diferencia (WALSH, 2007, p.50).


                Ou seja, a interculturalidade, em sua relação com o a colonialidade do poder, é mais que um discurso, ela é uma lógica. Como processo dessa interculturalidade, os países centrais produzem um refinamento da própria redução das identidades étnicas na América Latina. Mais precisamente falado a partir do Equador e da região andina, a autora reclama da redução da identidades do latino-americano a do indígena, sendo que “las identidades negras, la cultura negra y la producción epistémica quedan invisibilizadas” (WALSH, 2007, p. 52). Isto é, a própria redução é um instrumento dos países centrais e da lógica neoliberal, que usam seu aparato para reconfigurar o chamado racismo científico ou epistêmico. Nas palavras de Walsh, “De este modo, el proceso de racialización y de racismo subjetivo, institucional y epistémico no está vencido sino, en cierto sentido, reconfigurado” (WALSH, 2007, p. 52). Esse trecho em especial é muito revelador, dialogando muito com o que recentemente tem dito Souza (2015), mas sobretudo com o peso das mesmas críticas dos seus colegas de grupo/coletivo Modernidade/Colonialidade (cf. CASTRO-GÓMEZ, 2007).
                Esse é o mote central de nossa leitura da autora e das suas críticas à colonialidade do poder. Ao mesmo tempo em que há uma leitura das identidades étnicas na América Latina, há uma tentativa clara de reconfiguração epistêmica, sendo que é primordial reconhecer, como Walsh (2007, p. 53) que a interculturalidade na América Latina se refere menos à transformação política e social, como parece ter querido o movimento culturalista europeu, mas se referindo muito mais a viabilizar os conflitos entre “distintos grupos étnicos”. [2]
                 Concluímos esta leitura nos perguntando, como Walsh (2007, p. 55), de que forma as identidades étnicas podem e são “cooptadas”[3] por uma falsa política de interculturalidade neoliberal proveniente de organizações como Banco Mundial. Essa seguramente é uma questão não pretensamente pronta para ser respondida, mas uma questão central para avaliar como são e serão construídas as identidades nessa engenharia da nova fase cultural, política e econômica do capitalismo, com o peso dado aos países que passaram por processos longos e sofridos de colonização e escravização.



    Referências
    CASTRO-GÓMEZ, S. Decolonizar la universidad. La hybris del punto cero y el diálogo de saberes. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (Orgs.) El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores, 2007.
    SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    SOUZA, J. A tolice da inteligência brasileira. Rio de Janeiro: LeYa, 2015. 

    WALSH, C. Interculturalidad y colonialidad del poder Un pensamiento y posicionamiento “otro” desde la diferencia colonial In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (Orgs.) El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores, 2007.


    [1]  Tradução nossa do título original em espanhol: “Interculturalidad y colonialidad del poder Un pensamiento y posicionamiento “otro” desde la diferencia colonial”.
    [2] Tradução nossa.
    [3]  Tradução nossa.