Artigo originalmente publicado na Revista Querubim (B3), no link http://www.uff.br/feuffrevistaquerubim/images/arquivos/zquerubim_21_v_1.pdf
Gabriel Nascimento dos Santos1
Gabriel Nascimento dos Santos1
Maria D’Ajuda Alomba
Ribeiro2
Resumo:
O presente trabalho tem como objetivo discutir a importância do
livro didático de Língua Estrangeira (doravante LE) de acordo com o
ensino/aprendizagem crítico-reflexivos. Procura-se debater de que
maneira os livros didáticos incentivam o professor
crítico-reflexivo. Para tal, utilizamos como corpora as
páginas de dois livros de inglês coletados e utilizados em uma
escolas públicas e privadas. Assim, buscamos remeter a análise ao
referencial teórico utilizado, o qual vai desde as teorias sobre o
professor crítico-reflexivo até a Linguística Aplicada.
Palavras-chave:
Livro didático; PLE; Profissional crítico-reflexivo.
Abstract: This paper aims
at discussing the importance of textbook in Foreign Language (hence
FL) teaching in accordance with the critical-reflective teaching /
learning. Thus, we try to discuss on how the textbooks encourage
critical and reflective teachers. For this, we used as corpora the
pages of two English books collected and used by government and
private schools and remit to seek the theoretical analysis used,
which goes from theories of critical and reflective teacher to
Applied Linguistics.
Key-words: Textbook; PLE;
critical and reflective professionals.
Introdução
O papel do livro
didático (doravante LD) diante do ensino de línguas é interesse
frequente em trabalhos de pesquisa e pós-graduação na maioria das
universidades brasileiras há, pelo menos, cinco décadas (FRETAG ET
alli, 1989). A partir dessa realidade, no que condiz à pesquisa
científica, temos uma problemática consolidada a qual sempre
permite recortes e possibilidades para a investigação do objeto em
questão.
A partir da
consolidação do interesse por tal objeto, tornaram-se frequentes
estudos que situam o LD como acessório, mas importante na atuação
do professor. Nesse sentido, é preciso recordar que as teorias sobre
a atuação do professor são muitas e já passaram por diferentes
fases. No que diz respeito ao papel do professor em sala de aula,
dialogamos com teorias sobre o ensino e aprendizagem que primem
diretamente para uma reconfiguração do savoir-faire educacional.
Sendo assim, a configuração atual do savoir-faire
educacional é resultado de uma escola autoritária,
antidemocrática em que a escola tem o papel de formar o sujeito para
a vida adulta, sendo que tal sujeito não é formado para responder
às demandas da vida social em colaboração e espírito democrático,
mas para ser superior a outro ser humano e poder ensiná-lo como seu
superior (DEWEY, 1959). Entretanto, são escassos os estudos que
verificam as condições como os LDs dão aos professores
crítico-reflexivos em sala de aula. Entende-se, partindo da
discussão acima, que o mesmo possa apoiar o professor como material
acessório, pois não pode interferir na autonomia do professor em
sala de aula. Diante disso, visamos pesquisar os seguintes problemas:
a) O livro didático de LE incentiva o professor a atuar como
profissional crítico-reflexivo?; b) De que modo o livro didático de
LD incentiva o professor a atuar enquanto profissional
crítico-reflexivo?
A língua
estrangeira escolhida para escolha do livro foi inglês, sendo o
mesmo foi escolhido por ser utilizado pela escola pública. Ao
escolher o LD em foco, no entanto, visamos estar em coerência com a
mais recente legislação educacional brasileira representada pela
Lei 9.394 de 1996, os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,
1997) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (BRASIL,
2006). Compreendemos que a produção de material deve se dar
respeitando o posicionamento teórico-metodológico contido nesses
documentos oficiais uma vez que eles representam uma mudança
paradigmática no modo de compreender o ensino e a aprendizagem de
línguas, e suas características sociointeracionistas,
multiculturais e de valorização da pessoa humana.
Para tanto, ao
analisarmos o material didático, pretendemos perceber como os
espaços de debate são construídos em seu anterior, através da
análise de atividades e seções, textos, figuras etc.
Dessa maneira, temos
por hipótese de que os livros ainda não se adéquam ao modo de
produção crítico-reflexivo que permita ao professor realizar
atividades de debate e discussão com seus alunos de modo que todos
pensem e repensem o ensino e aprendizagem e problemas sociais a
partir do processo de construção cognitiva desenvolvido.
Acreditamos que há algumas iniciativas, mas algumas delas no
contexto de produção do LD não permitem um trabalho reflexivo mais
amplo.
O
professor crítico-reflexivo e as novas teorizações sobre a prática
As teorizações
sobre o professor reflexivo precedem as teorias sobre o
ensino/aprendizagem de Língua Estrangeira, tendo entre as duas um
diálogo constante no percurso epistemológico do século XX. Na
história da Educação, John Dewey aparece como um dos precursores,
norteando a pesquisa sobre o repensar do papel político da escola em
uma sociedade estratificada. Mais tarde a solidificação dá-se
graças aos avanços no realinhamento epistemológico sobre as
pesquisas em sala de aula, sendo que se tornou mais frequente
discutir a autoformação do professor como pesquisador de sua
prática (SILVA, 2011; ALMEIDA FILHO, 2005). Assim, nesse contexto,
nos fundamentamos nos postulados de Alarcão (2001) para poder pensar
uma postura mais reflexiva por parte da escola e por parte do
professor.
Antes, porém, é
preciso conceituar o que entendemos por professor crítico-reflexivo.
Trata-se de um conceito cunhado pelos estudiosos em educação, sendo
que o profissional é aquele que tem em sua execução práticas mais
dialéticas e dialógicas que permitam à sala de aula ser
interdisciplinar, plural com o incentivo das capacidades de reflexão
do aluno enquanto sujeito de sua história e atravessado por
discursos, alguns dos quais de sua pertença, de sua comunidade, de
sua família (DEWEY, 1956, 1959; NÓVOA, 1997; ALARCÃO, 2001).
Portanto, o sujeito constitui-se a partir de sua história, com suas
crenças e idiossincrasias. Ao contrário da escola racionalista,
aquela em que o intelectual e o profissional eram tomados como
neutros, podemos compreender que estamos em um tempo de realinhamento
escolar, em que não se pode pensar o profissional senão enquanto
ser subjetivo, dotado de sentimentos e crenças. Desse modo, ao falar
de crenças, estamos diretamente provocando a discussão sobre a
reflexão do professor enquanto sujeito.
Partindo do
posicionamento acima, toda a discussão sobre realinhamento
metodológico nos leva a compreender que não é mais possível
conviver com práticas antidemocráticas que não levem professor e
aluno a se pensarem em sala de aula. Posto o problema, cabe ao
professor e à instituição escolar ofertarem condições de
reflexão sobre a prática, pois:
Uma escola reflexiva
pressupõe uma comunidade de sujeitos na qual o desenvolvimento das
relações pessoais no seu sentido mais autêntico e genuíno deverá
estar no centro das atitudes, dos conhecimentos e da comunicação.
Nem seria possível de outra forma, visto que a reflexibilidade é um
atributo próprio da pessoa, como espaço aberto que possibilita a
vinda das coisas, dos objetos e dos outros sujeitos à presença no
ato da sua apresentação e representação. Por isso, são
necessários sujeitos inteligentes, responsáveis e livres,
sujeitos-pessoa, professores, alunos e demais agentes educativos,
reflexivos em uma escola reflexiva [...] (ALARCÃO, 2001: 31).
Assim, podemos dizer
que a escola tem esquecido o sujeito contido no professor, além de
burocratizar as relações escolares e oferta de más condições de
trabalho e materiais conservadores, estruturalistas e que não
permitem, ao professor maior embasamento e autonomia.
O ensino de
línguas, o professor de LE/PLE e a Linguística Aplicada
O surgimento da
Linguística Aplicada, ainda em contexto de aplicação das teorias
estruturalistas e gerativistas, permitiu o estabelecimento de teorias
sobre o ensino/aprendizagem de línguas (MOITA LOPES, 2008a). Essas
teorias, no entanto, em seu contexto de aplicação, não deram conta
da prática do professor enquanto sujeito crítico-reflexivo. A base
para analisar o professor só foi possível graças às mudanças na
concepção da Linguística Aplicada (doravante LA ) enquanto campo
interdisciplinar, com objeto próprio, distinto da Linguística
Geral, e com um quadro metodológico diferente (ALMEIDA FILHO, 2005;
MOITA LOPES, 2008b).
Assim, no que condiz
à pesquisa científica, a Linguística Aplicada não precisa do
arquétipo tradicional de ser “aplicada a alguma coisa” e,
portanto, estar em contexto de aplicação observando os problemas
práticos da linguagem para dele tirar teorias, como defende Almeida
Filho (2005). Por como Linguística Aplicada, entendemos o campo
interdisciplinar que se preocupa com problemas de ordem prática da
linguagem e que, para investigar tais problemas de seu objeto
empírico, desenvolve-se a partir da base de outras ciências humanas
e sociais no intuito de compreender seu objeto empírico, a
linguagem, e dele fazer uso enquanto objeto teórico. Nesse sentido,
só é possível construir conhecimento em Linguística Aplicada
quando atravessamos e substituímos a lógica tradicional de
aplicação por outra, interdisciplinar, transdisciplinar, em que
teoria e prática se reconstruam mutuamente (MOITA LOPES, 2008a).
O
papel político-acadêmico do Livro Didático no ensino de línguas
As discussões sobre
o papel do Livro Didático (doravante LD) são diversas, como
demonstram Fretag et alli (1989). Sendo assim, partiremos das
análises feitas sobre essa ferramenta escolar, já que na história
do Brasil, como propõe a autora, não há, de modo
institucionalizado, um histórico produzido dos documentos e
instituições a respeito.
O que é discutido
na área já passou por diversas etapas no Brasil e, ao que parece,
apenas se concentrou na qualidade do LD. Isso pode ser justificado
porque
existe uma
dificuldade teórica e técnica de definir a qualidade de um livro
didático, o que dificulta a elaboração de critérios de avaliação
adequados, aplicáveis simultaneamente aos assuntos tratados e ao
nível de conhecimento e capacidade de aprendizado da criança
(FREIGAG et alli, 1989: 41).
Por causa de tal
dificuldade, devemos salientar que o percurso de crítica ao conteúdo
do livro didático no Brasil foi conduzido por várias décadas sobre
os valores ideológicos nele impostos, valores esses que fomentam a
reprodução dos sistemas de dominação. É o que demonstra Faria
(1991), ao estudar como as crianças se apropriavam dos significados
da palavra “trabalho” e a sua relação com os livros didáticos.
A autora conclui demonstrando a forte influência do LD na
apropriação que a criança faz do “trabalho”.
Os LDs, portanto,
tem um papel político que não pode ser ignorado. Embora essa seja a
análise da maioria dos estudiosos, o enfoque ideológico que lhes é
dado é exagerado, pois se deve contar com o papel do professor
(FREITAG et alli., 1989).
Análise de dados
Para análise,
utilizamos dois livros, sendo o primeiro deles indicado nos Guias do
livro didático do MEC e o segundo aleatoriamente usado no ensino de
línguas em escolas de idiomas particulares. Para tanto, os livros
utilizados são:
- COLLIE, Joane; SLATER, Stephen. True to life: English for Adult learners. New York: Cambridge Press, 1995
- Upgrade/ obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida pela Richmond Educação. São Paulo: Richmond Educação, 2010.
O LD “Upgrade”,
indicado nos Guias do MEC e implementado em escola pública de ensino
médio, traz traços os quais permitem a possibilidade de reflexão
do professor em sala de aula com seus alunos. Em geral o livro começa
com um texto e, logo após, propõe discussão através da seção
“After reading”. O primeiro texto do livro é o da imagem abaixo:

Imagem 1- Atividade
de proposição de discussão entre professor e alunos
A seção intitulada
“After reading” seguinte propõe reflexão sobre o tema da ética
atravpes da interpretação do texto, como se pode ver abaixo:
Após a análise
concluída, percebemos O livro “True to life” tem espaços menos
reflexivos conforme veremos em nossa análise. Sendo assim, é
importante dizer que nossa análise não é quantitativa, mas
qualitativa. Assim, buscamos compreender o impacto, ainda que sejam
haja menos espaços discursivos de reflexão em um livro do que em
outro. A primeira página do livro traz uma proposta de apresentação
entre colegas, mas nada que busque entender o coletivo como força
propulsora da construção de conhecimento. A partir da apreciação
feita dessa primeira atividade, há um sinal lógico de que, mesmo
que ela traga a propriedade de permitir a interação, ela não
propõe reflexão dos sujeitos enquanto
Algumas
considerações
A partir da análise
dados, é possível refletir sobre os objetivos e sobre a hipótese
acerca do objeto de estudo escolhido. Diante dos objetivos, podemos
responder da análise realizada que os LDs pertencem a dois grupos
distintos: a) LD com proposta crítico-reflexiva, ainda que não de
modo amplo, o que é o caso do livro contido nos Guias do Livro
Didático do MEC “Upgrade”; b) LD “True to Life” usado em
escolas de idioma, na estrutura privada.Desse modo, confirmamos
parcialmente nossa hipótese desenvolvida inicialmente que diz
respeito à ideia de que os LDs ainda não se adéquam diretamente a
um modus operandi que enfoque as proposições de reflexão
por parte do sujeito.
O corpus
analisado corrobora nossa hipótese parcialmente à medida de que
ambos os livros trazem propostas muito tímidas, ainda que o LD
“Upgrade”, indicado pelo MEC e utilizado na esfera pública,
oferte mais espaços discursivos de discussão e debate em seu texto.
Este pode ser incluído na ideia de que nossa hipótese não foi
corroborada completamente, visto que tal LD propiciou atividades de
discussão e de caráter social. O caráter social, segundo
analisamos, oferta aos indivíduos a possibilidade de pensar em temas
que podem contribuir direta ou indiretamente para as atividades de
sala de aula, como papel da mulher na sociedade, o consumo etc.
O segundo LD
analisado, amplamente utilizado na iniciativa privada, confirma
completamente nossa hipótese, pois nada oferta de produtivo quanto à
reflexão dos sujeitos e pelos sujeitos. Todas as atividades são
propostas para reflexão estruturalista sobre itens gramaticais
apenas, como se o ensino de línguas se resumisse a esse aspecto.
Portanto,
demonstramos que a hipótese não foi corroborada completamente, mas
em parte, visto que se tratou de uma pesquisa qualitativa. Indicamos
que o tema, pertinente e amplo, carece de aprofundamento, o que não
pudemos efetivar nessa investigação e observação empreendida.
Neste trabalho
buscamos estabelecer um debate sobre o papel do livro didático sem
perder o enfoque no caráter de autonomia do professor em sala de
aula, localizando o LD na função de produto da indústria cultural
e resultado das discussões científico-culturais. Concluímos que o
presente trabalho é somente mais um daqueles que ora focalizam
questões básicas, mas coerentes com o contexto do ensino e
aprendizagem de línguas.
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Doutora em Linguística
Aplicada pela Universidade de Alcalá de Henares-Espanha. Atualmente
é professora titular do Departamento de Letras e Artes da
Universidade Estadual de Santa Cruz, pesquisadora do Programa de
Mestrado em Letras e coordenadora do Mestrado Profissional em
Letras.