Artigo originalmente publicado na Revista Caderno Seminal(B2), no link http://www.dialogarts.uerj.br/admin/arquivos_seminal/18_CADERNO%20SEMINAL%20TEMATICO%202012-FINAL_A.pdf
Gabriel
Nascimento dos Santos (UESC/CNPq)2
Maria
D’Ajuda Alomba Ribeiro (UESC)3
RESUMO
Pretende-se analisar
as possibilidades de produção escrita na Internet através do
gênero “blog” com alunos de Língua Estrangeira/Português como
Língua Estrangeira (doravante LE/PLE). O presente trabalho traz
resultados e apontamentos analíticos de um projeto de Iniciação
Científica concluído e de outro em andamento que se propõem
investigar as ferramentas tecnológicas que permitem o aprendizado de
PLE. Para tanto, tenciona-se analisar a produção escrita dos
estudantes de PLE participantes da pesquisa supracitada, tendo como
fundamentação teórica os pressupostos da Sociolinguística e
Linguística Aplicada, além de outras áreas afins. As análises
deste trabalho serão feitas através da coleta de dados dos textos
em desenvolvimento pelos estudantes pesquisados, tendo em vista o
aprimoramento do aprendizado de Português como Língua Estrangeira.
Nesse sentido, pode-se pensar o aluno de PLE a partir das pesquisas
recentes em Linguística Aplicada com ferramentas tecnológicas e
múltiplas linguagens. A produção escrita dos estudantes de PLE
permite descrições linguísticas dos fenômenos e recursos de
escrita, desde a linguagem escrita para o gênero textual “blog”,
até a comparações dos usos semânticos, sintáticos, morfológicos,
entre outros, e da escolha que levou o estudante a optar por um uso
em detrimento de outros. No caso da pesquisa desenvolvida o estudante
é estimulado a escrever em registro formal, devendo o professor de
LE/PLE atentar-se para tais usos e tentar aperfeiçoá-los através
de uma postagem-revisão e levando o estudante a aprimorar usos
formais da linguagem no Português Brasileiro.
Palavras-chave:
Linguística
Textual; LE/PLE; aprendizado.
ABSTRACT
This
paper aims at analyzing the possibilities of the written production
on the Internet through the genre blog with students of Foreign
Language (hence FL) and Portuguese as a Foreign Language (PFL). This
current study brings results and analysis of a project of Scholar
Initiation finished and another ongoing which aimed at investigating
technologic tools which enable the learning of FL/PFL. Thus, the
objective is to analyze the written production of the students of PFL
participants of the research which has said earlier which the
assumptions of the Sociolinguistics and Applied Linguistics. The
analysis of this paper will be made through the data collection of
the texts written by the students, aiming the learning of PFL. By
this way, it is possible to think of the student of PFL through some
current researches on Applied Linguistics. The written production of
the students of PFL enables linguistic descriptions of phenomenon,
and resources for writing, from the written language on the textual
genre blog, until comparisons by reviewing syntactic, semantic,
morphologic uses, and so on, and the choice which took the student to
use some structure by replacing some others. On the researches
ongoing and finished the student is stimulated to write in a formal
pattern of language, and the teacher of FL/PLF must be mindful and
the responsible to check those uses and try to make those perfect by
a reviewing-post on the blog taking the student to improve formal
pattern of language in the Brazilian Portuguese (BP).
Keywords:
Textual
Linguistics; FL/PFL; learning.
Introdução
A Linguística
Textual e a Linguística Aplicada, nos últimos anos, têm se
interessado em explicar e entender o funcionamento de um dispositivo
eloquente e oportuno no ensino/aprendizagem de LP e LE: a produção
escrita na Internet. Marcuschi (2004) ao definir o que é gênero, o
insere na esfera da materialização do discurso, e como o formato
para a produção deste. Sendo assim, os gêneros são diversos e
podem ser trabalhados em sala de aula, ainda sob o aspecto da
diversidade de gêneros existentes (ANTUNES, 2004).
O papel da
Linguística Aplicada, nesse contexto, é ultrapassar as barreiras
teóricas e desenvolver uma teoria a partir e dentro da prática
(MOITA LOPES, 2006). Nos últimos tempos, o gênero blog
tem
sido um dos mais explorados na rede mundial de computadores. Santos &
Alomba (2011) analisam a importância desse dispositivo ao concentrar
as atenções sobre os blogs
corporativos. Por outro lado Marcuschi (2005) situa a discussão ao
pensar alguns gêneros não como novos, mas como a materialização
de alguns já existentes no mundo real.
O blog
como
gênero permite fomentar uma série de discussões. Entre elas, a
possibilidade de usar o blog
como
um espaço que complementa a sala de aula e leva os resultados dela
para além do espaço. Portanto, ao discutir o aspecto do blog
pretendemos
entender a influência das Tecnologias da Informação e Comunicação
(TICs) no ensino de Língua Estrangeira (doravante LE), e, mais
especificamente, no que concerne ao objetivo da pesquisa geradora
deste trabalho, Português como Língua Estrangeira (doravante PLE).
O blog:
espaço de Hipertexto
O blog, definido
como texto, tem características históricas e linguísticas, dentre
as infinitas que lhe podem ser atribuídas. Dentre elas, é possível
destacar o tipo de linguagem utilizada. Ou melhor, o formato para ser
formato necessita de uma configuração. Em tal configuração,
destaca-se o Hipertexto. Linguisticamente, ele pode ser classificado
como um tipo de linguagem, mas
tecnicamente, um hipertexto é um
conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras,
páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, sequências
sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos.
Os itens da informação não são ligados linearmente, como em uma
corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas
conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto
significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão
complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez,
conter uma rede inteira (LÉVY, 1993, p. 33).
Assim, o hipertexto
liga e permite a realização de uma gama de opções. No caso do
blog, desde um link colocado em uma postagem que aponta para novos
links (e que contam com a opção do leitor) até a dispositivos com
linguagem eletrônica JAVA, JAVASCRITP4,
etc. que, por sua vez, possibilitam uma página direcionar a outras
tantas quantas se queira. Tais propriedades dão ao texto virtual
caráter de não apenas marcado por fatores internos ao texto e à
linguagem, mas locus
de
inúmeras possibilidades, dentre as quais veiculação de material
imagético, chat,
fórum,
comentários, etc. Assim:
o “hipertexto”, organiza a
informação em estrutura não linear ao texto e possibilita
alternativas de leitura que, de certa forma, podem reconduzir a
múltiplas interpretações do documento. Além de constituir, por si
só, nova forma de representação do saber, o hipertexto está
incorporado pela rede informática, que lhe empresta nova condição
lógica de organização e acesso. Isso significa que os documentos
construídos e armazenados em locais completamente diferentes
interagem em tempo real, permitindo que o leitor faça sua
organização própria do documento. (COSTA & PAIM, 2004, p. 30)
Ao dizer que o
hipertexto permite múltiplas opções que vão além do estudo
interno ao texto, questionamos o mesmo que questiona a Linguística
Aplicada ao criticar a postura da Linguística teórica. Segundo
Rajagopalan (2006) e Fabrício (2006) a distância entre teoria e
prática deve colocada em cheque, pois
[...] está em operação um
campo de forças plurais que entrelaça uma série de novos
significados, modos de produção de sentido, práticas, técnicas,
instituições, procedimentos de subjetivação e relações
discursivas, tornando problemática a adoção de pontos de vista e
explicações causais simplistas a respeito dos fenômenos sociais. O
reconhecimento da complexidade dessa “trama movente” que
caracteriza os nossos dias vem afetando parte da produção de
conhecimento na área de LA [...] Esses estudos abordam a linguagem
conectada a um conjunto de relações em permanente flutuação, por
entender que ela é inseparável das práticas sociais e discursivas
que constroem, sustentam ou modificam as capacidades produtivas,
cognitivas e desejantes dos atores sociais. Assim, a tendência de
muitos estudos contemporâneos em LA é focalizar a linguagem como
prática social e observá-la em uso, imbricada em ampla amalgamação
de fatores contextuais (FABRÍCIO, 2006, p. 47).
Assim, reafirma-se
a importância em trabalhar o suporte virtual e os gêneros lá
materializados nas aulas de LE/PLE.
O Blog-
Leitura
e produção textual
O Blog
como
gênero a ser trabalhado nas aulas de LE/PLE abre múltiplas
possibilidades, como foi discutido anteriormente. O método para
trabalhá-lo, entretanto, deve estimular a leitura e produção
textual. Sugere-se tanto que o estudante seja estimulado a ler,
quanto a escrever sobre o que leu.
Desse modo, pode-se
atentar que o uso das tecnologias emergentes envolve o aluno numa
realidade que vai além da sala de aula, sendo a aula lugar de
orientação, aprendizado e discussão do conteúdo a ser aprendido.
(ALMEIDA FILHO, 1999). O professor, no que concerne ao uso das
tecnologias, e, mais especificamente, ao uso do blog
deve
agir como um mediador.
Considera-se, assim, que as
pessoas sejam, ao mesmo tempo, sujeitos individuais e, como tais,
possuem diferentes habilidades de aprendizagem, diferentes
estratégias de tratamento da informação, como também sujeitos
coletivos que vivenciam constantes processos de interações sociais
e culturais. O ambiente de aprendizagem adequado e, naturalmente, a
ação mediadora do professor, nessa perspectiva, são elementos que
podem favorecer o processo de construção do conhecimento. [...]
(COSTA & PAIM, 2004, p. 21)
Isso também
comporta o que Silveira (1998) nomeou de professor interculturalista.
O professor de LE/PLE tem no blog
a
opção de montar atividades de leitura e retextualização, partindo
de algumas sugestões de Marcuschi (2004).
Das atividades que
podem ser propostas ao utilizar o blog
pode-se
destacar:
- Leitura e retextualização- o aluno de LE/PLE é convidado a ler um texto na língua-alvo e, após isso, ele deve refletir sobre o que leu e discutir com professor em sala de aula. Posto isso, deverá o aluno postar um texto no blog. A postagem será corrigida e trabalhada pelo professor nas aulas seguintes;
- Pesquisa em blogs - o professor pode incentivar no aluno a leitura em blogs diversos e trabalhar o fenômeno da variação no Português Brasileiro (doravante PB), diversas formas de falar a mesma coisa etc. seguindo pressupostos da Linguística Aplicada e Sociolinguística Variacionista (MOITA LOPES, 2006; BAGNO, 2001, 2004; BORTONI-RICARDO, 2004);
- Imagens no blog– o professor também pode propor o uso de imagens no blog. A atividade pode permitir ao aluno se inserir na cultura da língua em que está aprendendo ao mesmo tempo que o mesmo pode postar um comentário na língua-alvo e poder perceber diferenças entre L1 e L2;
- O blog como Diário- Para essa atividade, encaminha-se a partir da concepção de Marcuschi (2005) de que alguns espaços virtuais funcionam como suporte, e o blog, em muitos aspectos parece ser a materialização do gênero diário no âmbito virtual. Assim, o professor pode pedir aos alunos que façam um diário das atividades que estejam cumprindo como intercambistas, ou turistas etc. O professor, nesse contexto, tem a oportunidade de trabalhar a ortografia, mas também os aspectos de coesão e coerência textuais.
- Conexão entre blog, redes sociais e bate-papo- Atualmente, já é comum ferramentas que fazem integração entre contas. Dentre elas, os códigos JAVASCRIPT, mencionados anteriormente, têm o poder de colocar opções de conexão no Hipertexto do blog . (e.g. a opção comentário e curtir do Facebook podem ser implementadas no blog através do embed5.
- Estimular o comentário em blogs- ao estimular o comentário em blogs, o professor pode formular ideias para a criação e de diferentes blogs numa sala de PLE/LE e verificar os registros de linguagem, conforme utilização definida em sala de aula (monotoração padrão, não-padrão) de acordo com a tipologia textual e gênero escolhido. (e.g. o aluno pode colocar, como comentário, o gênero receita dentro do gênero virtual blog).
Assim, refletir
sobre as atividades acima pode direcionar o olhar do pesquisador
sobre atitudes de aluno e professor no ensino/aprendizagem de LE/PLE.
Leitura e
retextualização- o blog
como
suporte
Acreditamos que a
atividade de retextualização é necessária no ensino/aprendizagem
de LE/PLE nas aulas de leitura e produção textual (escrita e oral).
Entretanto, ao usar o blog
é
preciso ver opções que contribuam para a eficácia da aula.
Advoga-se aqui para
uma aula de LE/PLE que não de deixe de enfocar os aspectos culturais
(SILVEIRA, 1998), mas sem esquecer dos aspectos internos à língua.
As atividades de retextualização dão conta dessa necessidade ao
pedir que o aluno interprete signos sociais e os transforme em outros
textos.
Desse modo, o aluno
é convidado a interferir na camada do social, sem deixar de praticar
a leitura, mas não só a leitura inocente do texto em si que nada
tem a ver com a materialidade, mas com uma realidade modificadora que
Fabrício (2006) cobra no pesquisador em Linguística Aplicada.
Ao propor
atividades de retextualização, o estudante lerá textos na
Internet, em outros blogs
ou
em suportes externos, e, logo após, posta um texto no blog, que será
lido pelo professor. Essa atividade deve trazer ao professor o ensejo
para descobrir as lacunas do aluno, em que situações a L1 do aluno
interfere na L2 (ELLIS, 1997).
‘Transfer’
is yet another metaphor for explaining L2 acquisition. In some ways
it is an inappropriate one. When we transfer money we move it out of
one account and into another, so one account gains and the other
loses. However, when language transfer takes place there is usually
no loss of L1 knowledge. This obvious fact has led to the suggestion
that a better term for referring to the effects of the L1 might be
‘cross-linguistic influence’ (ELLIS, 1997, p. 54).6
O
processo complexo da aquisição/aprendizagem dá lugar a uma série
de questionamentos que devem ser feitos para guiar uma prática que
produza teorias, e que as teorias não sejam deslocadas da prática,
mas indagadoras dela, traçando pontos de articulação entre teoria
e prática. É preciso recriar o espaço da prática dentro da teoria
e, epistemologicamente, repensar nas barreiras entre o idealizar o
que será e refletir sobre o que foi. (MOITA LOPES, 2006).
Nesse sentido, o
fenômeno da interferência pode ser trabalhado nas aulas de leitura,
utilizando o blog
como
o suporte. Ao pedir ao aluno que leia e produza textos, trabalha-se
com uma escrita legislada, estabelecida por lei, pela nomenclatura
oficial do país, mas também com gêneros textuais que permitem a
variabilidade linguística. Desse modo, entendemos, a partir de Dolz
& Shcneuwly (2004), que a variação não ocorre somente na
linguagem oral, mas também na escrita.
Dessa maneira, não
se escreve um artigo jornalístico do mesmo modo que se escreve um
anúncio de publicidade. Cabe ao professor, selecionar junto com os
alunos o registro de linguagem adequado. E, seguindo o proposto por
Antunes (2004) no que diz respeito ao ensino de LP, pode-se também
utilizar uma variedade de gêneros no ensino de LE/PLE. O
ensino/aprendizado, nesse caso, dá conta da estilística, da
sociolinguística, da pragmática, e da própria psicolinguística
quanto ao aprendizado inconsciente da sistematização gramatical da
língua-alvo.
Another
problem is that the research treats acquisition as if it is a process
of accumulating linguistic structures. Acquisition is seen as
analogous to building a wall, with one brick set in place before
another is placed on top. Such a view is, in fact, seriously
mistaken, as studies of individual grammatical structures have made
clear. Even the simplest structure is subject to a process of gradual
development, manifesting clear stages. To investigate this we need to
consider the sequence of acquisition (ELLIS, 1997, p. 22). 7
Portanto,
as aulas de leitura e produção textual, com o blog
e
demais interfaces virtuais, permitem a aquisição inconsciente de
certas estruturas gramaticais, pragmáticas etc. e podem ser valiosas
no ensino/aprendizagem/aquisição de LE/PLE.
O Blog
em
uso- um estudo de caso
Os textos que
analisaremos aqui fazem parte do projeto de Iniciação Científica e
do projeto de extensão com temática de ensino/aprendizagem de
Português por estrangeiros da Universidade Estadual de Santa Cruz.
Respeitando-se a taxonomia existente, tomamos por estrangeiros e
ensino de Português como Língua Estrangeira, porque entendemos que,
quanto à terminologia da diferença entre os termos Português como
Língua Estrangeira (PLE) e Português como Segunda que Língua
(PL2), as diferenças devam ser destacadas quando se tratar de
Políticas Linguísticas (MOITA LOPES, 1996).
Quanto à pesquisa,
esta teve como objetivo investigar o funcionamento das Tecnologias de
Informação e Comunicação (TICs) no ensino/aprendizagem de PLE. Um
dos dispositivos tecnológicos pesquisados foi o gênero virtual
blog,
suporte
para gêneros textuais existentes e para outros que podem passar a
existir em meio virtual.
A estudante
pesquisada é uma norte-americana do programa Capes-Fulbright, em que
profissionais estrangeiros são enviados ao Brasil a fim de serem
assistentes do ensino da Língua Inglesa, e que brasileiros têm
atividade similar financiada nos Estados Unidos. Como a estudante já
estava se despedindo da universidade à época da realização do
projeto, a pesquisada, por ter nível intermediário de Português,
preferiu trabalhar a escrita formal, pois tinha preferência por
continuar no Brasil e tentar conseguir um emprego.
Durante o projeto,
desenvolvemos um blog,
o qual não divulgaremos pela ética desenvolvida no processo de
pesquisa e que nos impele a não exposição do pesquisado. Porém,
os textos produzidos são de nossa importância. No primeiro, ela
narra um pouco da sua história:
Eu acabo de voltar aos estados
unidos depois de completar uma bolsa do Fulbright-CAPES na
Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus, Bahia. Com a bolsa,
lecionei inglês para alunos do departamento de Letras durante um ano
acadêmico. Gostei muito do trabalho e agora estou procurando outro
emprego na área acadêmica no Brasil.8
Ao ler o trecho
acima, percebe-se na estudante um certo grau de fluência, um dos
fatores que lhe permite produzir textos em LP. No processo do
projeto, após a postagem no blog
o
revisor devia postar um texto alertando sobre o que deveria ser
melhorado, como:
- Eu acabo de voltar aos Estados Unidos [LETRA MAIÚSCULA NAS LETRAS INICIAIS] depois de completar uma bolsa do convênio.
Assim, a intervenção
do professor no texto reforçou a escrita da estudante. Também foi
sugerida a ela que lesse um texto e que escrevesse sobre o assunto.
Esse teste serviu para provocar a leitura da mesma. O próximo texto
escrito foi resultado dessa atividade:
Estou voltando ao meu blog,
escrevendo de um país diferente, uma
cidade nova, uma mentalidade aberta. As vezes escrever aqui no blog
parece uma perdida de tempo – quem vai ler isso? Provavelmente poucas
pessoas (o que significa que posso escrever muitas besteiras!) mas não
vou tentar justificar meu desejo de escrever. Cidade actual? Nashville, Tennessee: casa de musica country e
bluegrass, onde as botas de caubói nunca morreram, a ioga é quente, o
sol brilha em janeiro e a segregação racial é uma realidade social.
Bem-vindo ao coração dos estados unidos. As pessoas gostam de
conversar sobre a tecnologia- "olha o meu produto novinho de Apple "
- e dirigem carros que são bem mais grandes do que o necessário. Eles
curtem sentar nos cafés -"Vou querer uma cafe com leite de soja, eu
sei que causa o câncer mais eu simplesmente adoro o sabor de
aspartame"- e usar os seus notebooks (o que eles estão fazendo de
qualquer jeito)?
cidade nova, uma mentalidade aberta. As vezes escrever aqui no blog
parece uma perdida de tempo – quem vai ler isso? Provavelmente poucas
pessoas (o que significa que posso escrever muitas besteiras!) mas não
vou tentar justificar meu desejo de escrever. Cidade actual? Nashville, Tennessee: casa de musica country e
bluegrass, onde as botas de caubói nunca morreram, a ioga é quente, o
sol brilha em janeiro e a segregação racial é uma realidade social.
Bem-vindo ao coração dos estados unidos. As pessoas gostam de
conversar sobre a tecnologia- "olha o meu produto novinho de Apple "
- e dirigem carros que são bem mais grandes do que o necessário. Eles
curtem sentar nos cafés -"Vou querer uma cafe com leite de soja, eu
sei que causa o câncer mais eu simplesmente adoro o sabor de
aspartame"- e usar os seus notebooks (o que eles estão fazendo de
qualquer jeito)?
Atentando-se a tal
questão, houve um encontro via Facebook
para
a discussão do texto, e, após isso houve a postagem-revisão:
Estou voltando ao meu blog,
escrevendo de um país diferente, uma
cidade nova, uma mentalidade aberta. As (Às) vezes escrever aqui no blog parece uma perdida de tempo – quem vai ler isso? Provavelmente poucas pessoas (o que significa que posso escrever muitas besteiras!) mas não vou tentar justificar meu desejo de escrever.
Cidade actual (atual)? Nashville, Tennessee: casa de musica (música) country e bluegrass, onde as botas de caubói nunca morreram, a ioga é quente, o
sol brilha em janeiro e a segregação racial é uma realidade social.
cidade nova, uma mentalidade aberta. As (Às) vezes escrever aqui no blog parece uma perdida de tempo – quem vai ler isso? Provavelmente poucas pessoas (o que significa que posso escrever muitas besteiras!) mas não vou tentar justificar meu desejo de escrever.
Cidade actual (atual)? Nashville, Tennessee: casa de musica (música) country e bluegrass, onde as botas de caubói nunca morreram, a ioga é quente, o
sol brilha em janeiro e a segregação racial é uma realidade social.
A estudante, no
texto acima, não usa a crase antes de vezes, algo muito comum
inclusive entre brasileiros, seguindo um fenômeno amplamente
estudado por epsquisadores brasileiros. A palavra “actual”,
escrita por ela, deixa claro que o Português de Portugal tem
conseguido efetivar com mais força sua política de
internacionalização do que o Português do Brasil (PB). Mais partes
passaram pela análise do professor como em:
"olha o meu produto
novinho de (da) Apple"
- e dirigem carros que são bem mais grandes do que o necessário. Eles
curtem sentar nos cafés -"Vou querer uma (um) cafe (café) com leite de soja, eu sei que causa o câncer, mais (mas) eu simplesmente adoro o sabor de aspartame"- e usar os seus notebooks (o que eles estão fazendo de qualquer jeito)?
- e dirigem carros que são bem mais grandes do que o necessário. Eles
curtem sentar nos cafés -"Vou querer uma (um) cafe (café) com leite de soja, eu sei que causa o câncer, mais (mas) eu simplesmente adoro o sabor de aspartame"- e usar os seus notebooks (o que eles estão fazendo de qualquer jeito)?
Entretanto,
entendemos que não somente aspectos gramaticais podem ser tratados
no ensino/aprendizagem, mas até o andamento presente, devido à
demanda não foi possível testar atividades com usos culturais,
pragmáticos etc.
Percebam que no
texto acima, a estudante coloca a preposição “de” antes de nome
de marca no gênero feminino. O gênero aí é dado por conta do
pressuposto de que Apple
é uma empresa, e de que empresa é gênero feminino. Logo, na
produção ao dizer o nome de estrangeirismos, quando se trata de
empresas, utilizamos o artigo que define o gênero do substantivo
representante da categoria. O mesmo não se dá, em geral, com
cidades (e.g.9
A
São
Paulo), mas com alguns estados raros (e.g. A
Bahia,
O
Paraná
etc.).
Assim, na pesquisa
realizada não foi possível estender os exercícios a outros muitos
que compreendiam além da questão gramatical, outras de ordem
cultural e discursiva. Essa opção está em andamento.
Considerações
Finais
Assim, as análises
contidas neste trabalho têm o intuito de contribuir para as
discussões sobre o papel das tecnologias no aprendizado de línguas,
sendo que a preferência por Português como Língua Estrangeira se
torna viável a partir da solidez da economia brasileira e a
visibilidade do país em tratados internacionais e nos blocos de
poder.
Este estudo tentou
enfocar a ferramenta virtual blog
e
discutir as possibilidades de trabalhá-lo na sala de aula de LE/PLE,
seguindo pressupostos que vão desde a Sociolinguística até a
Linguística Aplicada no que concerne à observação e preocupação
quanto ao ensino/aprendizagem de LE/PLE. Desse modo, entendemos que
este trabalho apenas apresenta possibilidades, a partir de uma
pesquisa de Iniciação Científica, mas que há inúmeras outras
possibilidades a serem estudadas, e que são viváveis e condizentes
com um espaço de aprendizado que se apropria dos meios eletrônicos
e/ou virtuais para construir conhecimento.
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Perspectivas. São
Paulo: Cortez, 1998.
1
Trabalho resultante dos Projetos de Iniciação Científica:
“Multiculturalismo na rede: os blogs e redes sociais como
mecanismos de comunicação intercultural e a interface Português
como Língua Estrangeira” e “O Ensino de Português como Língua
Estrangeira (PLE) e as Tecnologias da Informação e Comunicação
(TICs): a busca de subsídios tecnológicos e a sua importância
enquanto difusores da cultura brasileira”, sendo o último em
andamento e financiado pelo CNPq.
2
Discente da graduação em Letras da Universidade Estadual de Santa
Cruz (UESC), Departamento de Letras e Artes (DLA) e Bolsista CNPq de
Iniciação Científica. Atua ainda como Coordenador-geral do Centro
Acadêmico de Letras e membro da Executiva Nacional dos Estudantes
de Letras.
Dra. em Linguística
Aplicada pela Universidade de Alcalá de Henares-Espanha, é
professora adjunta do Departamento de Letras e Artes (DLA), docente
e coordenadora do programa de Mestrado em Letras: Linguagens e
Representações e do projeto de extensão “Português como Língua
Estrangeira” da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
4
A quantidade de linguagens disponíveis hoje cria uma diversidade de
opções para o internauta, e, por conseguinte, para o leitor.
5
Do inglês “embutir”, é uma Tag
HTML que permite
levar a extensão de um arquivo de uma página (Música, vídeo,
imagem, etc.) para outra no Hipertexto.
6
“Transferir” [‘transfer’] é ainda uma outra metáfora para
explicar aquisição de L2. Em muitos sentidos tratas-se de uma
definição inapropriada. Quando transferimos dinheiro nós movemos
de uma conta para outra, e uma conta ganha enquanto a outra perde.
Entretanto, quando a “transferência” ocorre na linguagem não
há nenuma perda, geralmente, no conhecimento da L1. Esse fato óbvio
nos leva a sugestão de um termo melhor para se referir aos efeitos
que a L1 podia ser “influência fora da fronteira linguística”
(Tradução feita por Gabriel Nascimento).
7
Um outro problema é que a pesquisa trata a aquisição como se ela
fosse um processo de acúmulo linguístico de estruturas. A
aquisição é vista como análoga à construção de um muro, com
um tijolo colocado em um lugar antes de outro que é colocado no
topo da construção. Essa visão é, na realidade, um sério
engano, tal como estudos de estruturas gramaticais individuais
deixaram claro. Mesmo a estrutura mais simples é sujeita a um
processo de desenvolvimento gradual, manifestando claros estágios.
Para investigar tal, precisamos analisar a sequência da aquisição
(Tradução feita por Gabriel Nascimento).
8
O link do projeto não será divulgado. Coleta de dados- UESC/CNPq
2011-2012.
9
E.g. Exemplia Gratia,
do Latim “Por
exemplo”.